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Um fim amargo

Presidente peruano renuncia após 601 dias no cargo. Sua única façanha foi ter libertado Alberto Fujimori, algo que tinha prometido nunca fazer

Por Duda Teixeira - 23 mar 2018, 06h00

Ao renunciar na quarta­-feira 21, o economista Pedro Pablo Kuczynski, o PPK, passou a rivalizar em brevidade no cargo com os 609 dias que Dilma Rousseff governou em seu segundo mandato. PPK ficou dezoito meses, ou 601 dias, no comando do Peru. Em tão pouco tempo, deixa como marca pessoal seu envolvimento na rede internacional de corrupção concebida e operada pela Odebrecht — aliás, o envolvimento em corrupção é também o legado mais visível de outros três ex-­presidentes do Peru. Ollanta Humala está preso, Alejandro Toledo, foragido, e Alan García é investigado. Na economia, PPK manteve as regras do jogo e o país crescerá perto dos 4% nos próximos anos. Sua única façanha digna de nota foi o indulto dado ao ex-ditador Alberto Fujimori, algo que ele tinha prometido nunca fazer. “O que mudou no país desde a posse, em julho de 2016, é que Fujimori está livre. E note que PPK foi eleito com votos de antifujimoristas”, diz o cientista político peruano Carlos Meléndez, da Universidade Diego Portales, no Chile.

Em 2016, PPK venceu o pleito contra Keiko Fujimori, filha de Alberto, com 50,12% dos votos e o apoio da população que queria evitar um retorno ao fujimorismo, movimento dos seguidores do ditador que governou o país entre 1990 e 2000. Mas PPK, apesar de ter levado a Presidência, viu os herdeiros de Alberto Fujimori conquistar a maioria no Congresso, que ficou sob a liderança de sua rival, Keiko. Depois, ele mostrou-se incapaz de forjar alianças com os deputados. Para agravar a situação, muitos dos que tinham sido eleitos pelo seu partido tornaram-se ministros e deixaram as negociações parlamentares de lado. Um erro crasso. “O sistema peruano é semipresidencial, ou semiparlamentar. Se PPK nos ensinou alguma coisa, é que um presidente não pode governar de costas para o Congresso”, diz o constitucionalista Aníbal Quiroga, de Lima.

No discurso de renúncia, PPK afirmou que tomou a decisão porque seus opositores haviam colocado muitos obstáculos à sua frente, criando uma situação de ingovernabilidade. Em dezembro de 2017, o Congresso abriu um processo de impeachment contra PPK por incapacidade moral. Duas consultorias vinculadas a ele, a Westfield Capital e a First Capital, receberam cerca de 5 milhões de dólares da Odebrecht entre 2004 e 2014, época em que PPK foi ministro de Economia e Finanças e primeiro-­ministro. Os achados contradiziam o discurso presidencial.

Em entrevista a VEJA, em dezembro de 2016, PPK disse que a sina dos presidentes peruanos, que sempre terminam o mandato com baixa popularidade, estava ligada à corrupção, mal que já vinha sendo sanado: “Isso se deve a circunstâncias específicas. Alguns foram afetados por problemas de corrupção em seu governo. Estávamos tendo problemas desse tipo recentemente, mas creio que já conseguimos resolvê-los”.

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Uma semana antes da votação de dezembro no Congresso, PPK admitiu a jornalistas ter recebido “algum dinheiro” e se referiu à Westfield como seu “banquinho”. O presidente só foi salvo porque dez fujimoristas liderados pelo filho caçula do ex-ditador, Kenji, recusaram-se a apoiar o processo. Em troca, PPK deu um indulto a Fujimori pai, que deixou a prisão. Na semana passada, dias antes de uma nova votação de impeachment, que estava marcada para a quinta-feira 22, o partido de Keiko divulgou vídeos em que Kenji falava sobre a compra de votos de parlamentares por parte do presidente com cargos e verbas (os irmãos estão brigados). PPK, o antifujimorista, entrará para a história como o presidente que libertou Fujimori.

Publicado em VEJA de 28 de março de 2018, edição nº 2575

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