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Turbulências no voo

Serviços precários, preços altos e a curta festa no exterior após o advento do real marcaram a rota dos turistas brasileiros nas últimas décadas

Por Ana Claudia Fonseca 7 set 2018, 07h00

Em meados de 1972, um grupo de 79 turistas embarcou em um jato da extinta Transbrasil, no Aero­porto do Galeão, no Rio de Janeiro, rumo a João Pessoa. Tratava-se de uma experiência inédita que, acreditava o regime militar, poderia ajudar a deslanchar a incipiente indústria turística do país: o voo fretado. Embora existisse desde a II Guerra Mundial, essa modalidade de transporte custou a ser implantada em território nacional. Isso só ocorreu quando ficou clara sua utilidade para o incremento da proposta de ampliar o turismo interno. Explica-se: naquele início da década de 70, era muito caro viajar de avião no Brasil. Um bilhete ida e volta do Rio a Salvador, por exemplo, saía pelo equivalente a 5 500 reais (hoje, custa a partir de 660 reais). Para quatro noites de hospedagem em um hotel de primeira linha na capital baiana, era preciso desembolsar algo próximo de 2 133 reais (contra os atuais 1 100 reais). Embalado pelo milagre econômico, o governo do general Emílio Garrastazu Médici tomou para si a missão de mudar esse quadro. Em julho daquele ano, autorizou as companhias aéreas a realizar o chamado voo charter. Ele incluía, além de passagem aérea com 40% de desconto, refeições, passeios etc. — tudo a um custo menor do que se pagaria por um bilhete comum e o mesmo número de pernoites. Na teoria, era uma boa ideia. O sucesso, porém, dependia da qualidade dos serviços em terra. E eles se mostraram lamentáveis, como relatou a reportagem de capa de VEJA de 2 de agosto de 1972.

Ao se aproximar do aeroporto da capital paraibana, o jato da Transbrasil foi impedido de pousar porque faltavam à pista os 500 metros a mais que, durante a noite, eram necessários para acolher aviões do seu porte. Os passageiros foram então obrigados a descer no Recife e percorrer os 120 quilômetros até João Pessoa em um ônibus sem poltronas reclináveis nem bagageiro. O trajeto terrestre demorou inacreditáveis três horas e meia, uma hora a mais do que a viagem de avião. Apesar dos percalços, os turistas continuavam animados, diante da perspectiva de uma pesca de baleia, a principal e inusitada atração do pacote. Os organizadores da excursão, no entanto, esqueceram-se de combinar com os pescadores — e o grupo de viajantes teve de se contentar em assistir, no próprio hotel, a uma sessão de audiovisual em que se exibiam imagens dos cetáceos esquartejados no cais paraibano.

1972, 1996, 2000 - As idas e vindas do setor na perspectiva de VEJA //VEJA

A precariedade dos serviços e a falta de infraestrutura no próprio país eram alguns dos motivos que impeliam os brasileiros a passar as férias no exterior. O preço proibitivo também. Em 1971, uma excursão de doze dias para Buenos Aires e Bariloche, incluindo passagem e hotel, saía pelo mesmo valor de uma viagem de uma semana ao Recife, em voo regular e com hospedagem (em valores de hoje, 13 000 reais). Não surpreende que os gastos dos brasileiros no exterior tenham sido de 207 milhões de dólares naquele ano, enquanto os estrangeiros deixaram 49 milhões de dólares por aqui. O recorrente déficit no setor nortearia medidas extremas.

Em junho de 1976, com a justificativa de que agia em prol do interesse da nação, o presidente-­general Ernesto Geisel assinou o Decreto-Lei 1470, que ergueu uma barreira entre o Brasil e o resto do planeta ao determinar um depósito de 12 000 cruzeiros (atualmente, 18 000 reais) para quem quisesse sair do país. Ao limitar os gastos turísticos, o então ministro da Fazenda, Mário Henrique Simon­sen, pretendia proporcionar uma economia de divisas da ordem de 300 milhões de dólares, quase o suficiente para eliminar o déficit do setor (então em 340 milhões de dólares). Para a classe média, que só conseguia excursionar pelo exterior à custa de muito sacrifí­cio, a “lei dos 12 000 cruzeiros” liquidou qualquer pretensão nesse sentido — e o turismo interno passou a ser sua única opção.

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Na reportagem de capa “Como viajar ao exterior?”, de 16 de junho de 1976, VEJA narrava de que maneira, surpreendidas às vésperas das férias escolares, famílias permaneceram distantes, cursos foram adiados e passeios, esquecidos. As peregrinações à Disney, por exemplo, caíram pela metade. “Se tirei passaporte; se comprei passagem; se avisei à Light, à Telerj e à Gaserj (já existe a sigla?) que estou de viagem, mas já volto; se me despedi dos amigos… por que me exigem esse depósito de 12 000 cruzeiros para que a viagem se efetive?”, escreveu Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) no Jornal do Brasil, resumindo o ultraje geral. Apesar da grita, a manobra de Simon­sen deu resultado. No ano seguinte, o valor da receita turística brasileira alcançou 700 milhões de dólares, diante de uma saída de 887 milhões. Embora ainda deficitária, a conta-turismo mostrava retração pela primeira vez. Isso não impediu que a antipatia pela medida continuasse até que fosse eliminada, no governo seguinte.

A estabilidade econômica decorrente do Plano Real encorajou uma revoada para o exterior. Em 1996, dois em cada 100 brasileiros voltaram a cruzar as fronteiras em viagens de lazer ou de negócios (em 1970, apenas dois em cada 1 000 viajaram para fora do país). Os aeroportos experimentaram, então, o caos. Em São Paulo, nem a polícia conseguia organizar as filas diante dos guichês de embarque internacional de Cumbica. No Rio, os voos saíam com atraso do Galeão devido ao excesso de passageiros. No aeroporto de Miami, o principal destino dos brasileiros nos Estados Unidos, era preciso esperar duas horas para passar pela imigração. O fenômeno foi estampado na capa de VEJA de 3 de janeiro com o sugestivo título “O arrastão no exterior”. A revista descrevia o entusiasmo com que os brasileiros se lançavam às compras longe de casa. Na França, despendiam até o triplo da média dos demais visitantes estrangeiros. Também eram os mais gastadores em Nova York. No Caribe, ficaram famosos ao distribuir gorjetas de 5 dólares, mais do que deixavam os turistas de qualquer outra procedência. O Brasil saía de férias — e estava disposto a gastar.

A melhor explicação para essa festa no exterior era o vigor da moeda nacional. Graças à equiparação do real ao dólar, nunca fora tão barato viajar para além das fronteiras. Um pacote de uma semana em Nova York, na baixa temporada, saía por 900 dólares (com passagem, hotel e passeios), bem mais em conta do que ficar o mesmo tempo em um hotel mediano do Nordeste. Com a moeda brasileira valorizada, tornou-se vantajoso comprar no exte­rior, onde os produtos eram, na boca do caixa, muito mais baratos. Segundo um estudo realizado pelo governo americano, 91% dos turistas brasileiros elegeram as compras como seu principal programa nos Estados Unidos.

Essa voracidade, sabe-se, não duraria. Com a desvalorização do real, ocorrida em janeiro de 1999, as lojas de Miami passaram a ser trocadas pelos resorts, que então proliferavam no Brasil. Em 13 de dezembro de 2000, VEJA percorreu sete deles para a reportagem de capa intitulada “Ilhas da fantasia”. Os refúgios exclusivos, que receberiam no ano seguinte 1,3 milhão de turistas, seriam o prêmio de consolação da classe média nacional, impedida de viajar para o exterior. Como tinham nível internacional, eles podiam competir com hotéis de outros destinos na hora de atrair os estrangeiros — e, assim, aumentar o número de visitantes das mais diversas nacionalidades ao Brasil, estagnado havia vários anos. Não foi, contudo, o que aconteceu, como mostra a reportagem a seguir.

Publicado em VEJA de 12 de setembro de 2018, edição nº 2599

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