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Tudo é permitido para Neymar

O genial atacante do PSG chega à sua segunda Copa na dupla condição de Deus e diabo — e, em ambas, parece não haver limites

Por Tiago Leme, de Paris - 8 Jun 2018, 06h00
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No antebraço esquerdo, já quase no punho, acima do desenho do escudo de um guerreiro montando um leão, Neymar fez tatuar o número de um versículo da Bíblia, o Efésios 6:11, que diz o seguinte: “Vistam-se com toda a armadura que Deus dá a vocês para ficarem firmes contra as armadilhas do diabo”. Talvez fosse o caso de o genial atacante do PSG, o grande nome da seleção de Tite, proteger-se das tinhosas arapucas que ele mesmo cria, subtraindo-lhe a simpatia do menino que nasceu para ser o novo Pelé. Na véspera da apresentação em Teresópolis, a caminho da Rússia, Neymar tornou pública uma mensagem semelhante, na linha do “todos contra mim”, por meio de uma postagem no Instagram, seu modo de comunicação mais frequente, além das marcas na pele: “Se a vida é entediante, arrume algo para fazer, só não cuide da minha”.

Esse tom abusado, até compreensível em um jovem de 26 anos cujos ombros suportam o mundo e que se tornou o jogador mais caro da história (ele foi comprado pelo PSG ao Barcelona pelo equivalente a 975 milhões de reais), chegou ao apogeu num episódio de fevereiro deste ano, na semifinal da Copa da Liga Francesa, contra o Rennes. Nos minutos finais da partida (vitória por 3 a 2), ele estendeu o braço para ajudar o zagueiro da equipe oponente, Traoré, que estava no gramado, caído. Quando o rival lhe deu a mão para se reerguer, o brasileiro recuou e saiu rindo. A atitude, “um feio gesto que está dando a volta ao mundo”, na definição do jornal esportivo espanhol Marca, pôs o camisa 10 na defensiva. Diante de um mar de microfones, ele disse: “Eu até falo que o futebol tá meio chato, porque hoje não se pode fazer nada, tudo vira polêmica, tudo vira chateação. Fiz uma brincadeira com um cara dentro de campo, e já vão colocar polêmica nisso. Vão falar um monte de besteira. Faço isso com meus amigos, por que não posso fazer com meu adversário?”.

Como Neymar previu, falou-se um monte — pouquíssima besteira, ressalve-se —, porque ninguém gostou, nem mesmo a torcida do PSG — e, uma vez mais, o brasileiro estampou as manchetes como Deus e como diabo, como o craque que ninguém para e como o provocador que não se emenda. É nessa dupla condição, de esperança e ceticismo, que ele conduzirá o Brasil na estreia, contra a Suíça. Os dois Neymares, no jogo de analogia com a literatura russa proposto por VEJA, são como o Nikolai Vsievolódovitch Stavróguin de Os Demônios, obra-prima de 1872 de Fiódor Dostoiévski. O livro, que nasceu como um panfleto político inspirado em um episódio verídico — o assassinato de um estudante por um grupo niilista —, tornou-se um magistral estudo do pensamento político, social, filosófico e religioso de seu tempo, antessala da Revolução Bolchevique, de 1917. Os demônios do título não são os protagonistas do romance, mas sim “todas as chagas, todos os miasmas, toda a imundície (…) que se acumularam na nossa Rússia grande, doente e querida para todo o sempre”. Fica­-se aqui, a fim de evitar o spoiler para aqueles que pretendem atravessar as monumentais 704 páginas do romance.

Stavróguin, um dos membros do grupo que matou o estudante, é um ateu niilista, alguém que, nas páginas de Dostoiévski, vivia cada um de seus momentos, sempre radicais, como se não houvesse moral, como se não houvesse Deus e tudo fosse permitido, um bad boy dos oitocentos. Evidentemente, Stavróguin não é um carbono de Neymar — nem poderia sê-lo, dadas as diferenças abissais entre um aristocrata russo do século XIX e um brasileiro do século XXI. Tampouco é preciso dizer, por óbvio, que os estragos e os crimes de Stavróguin não se comparam às posturas de Neymar. Mas há entre as duas figuras alguma correspondência no modo como abordam a vida (e convém, antes de tudo, ressaltar que uma das características de Stavróguin é ser muito benquisto pelas mulheres).

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— Começo a não entender nada — pronunciou Stavróguin com raiva. — Por que todo mundo espera de mim o que não espera dos outros? Por que tenho de suportar o que ninguém suporta e implorar pelos fardos que ninguém consegue suportar?

AO VIVO NO INSTA – Os torcedores do PSG ficaram irritados com a postura de Neymar depois de quebrar o quinto metatarso do pé direito. Ele aparecia leve e faceiro, com a bota ortopédica, jogando pôquer em dia de partida do time francês e feliz ao lado de Bruna Marquezine Instagram/Reprodução

A semelhança entre o que diz Stavróguin e o que disse Neymar depois do ruidoso instante da mão recusada a um atleta no gramado (“tudo vira chateação”) é mera coincidência. Mas é evidente o elo entre um e outro. Está lá em Os Demônios, no trecho final, em que Stavróguin escreve uma carta-confissão:

“Toda situação ignominiosa demais, humilhante ao extremo, torpe e principalmente cômica por que tive de passar em minha vida sempre despertou em mim um extraordinário prazer ao lado de uma desmedida ira. O mesmo acontecia nos momentos de delitos, nos momentos de perigo de vida. Se eu roubasse alguma coisa, sentiria no ato do roubo o êxtase proveniente da consciência da profundidade da minha vileza. Não era da vileza que eu gostava (aí o meu juízo estava sempre perfeito), gostava do êxtase que me vinha da angustiante consciência da baixeza”.

Neymar também tem suas pequenas baixezas, como a insistência em tomar do uruguaio Cavani o posto de cobrador oficial de pênaltis do PSG, mas nem sempre parece ter consciência delas, que, felizmente, nem de longe são tão torpes quanto as de Stavróguin — raras vezes, como após a partida da seleção contra o Japão, em Lille, no ano passado, ao levar um cartão amarelo depois de dar um tapa num jogador que o derrubara, ele pediu desculpas. Naquela oportunidade, foi claro: “Errei muitas vezes, vou errar ainda, mas tento melhorar”. Os torcedores, sim, sabem nitidamente o que lhes desagrada na postura do atacante. A principal torcida organizada do PSG, o Collectif Ultras Paris, considerou “indecente” Neymar ter feito os dois meses de recuperação da fratura do quinto metatarso do pé direito em Mangaratiba, na sua casa de praia no Rio de Janeiro, e não em Paris. Os torcedores não gostaram porque o jogador intercalou o rigoroso tratamento com transmissão ao vivo de sua vida no Stories do Instagram, com cenas de pôquer, videogames, afagos com Bruna Marquezine e muita zoeira com os “tóis”, como são chamados os amigos inseparáveis que o acompanham aonde quer que ele vá.

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Os tóis (uma corruptela de “nóis”) são Gil Cebola, Jota Amâncio e Gustavo Almeida, que fazem as vezes de assessor, fotógrafo e ajudante de ordens, tudo junto e misturado. Eles constituem um porto seguro. O argentino Javier Mascherano, colega de Neymar no Barcelona, citado pelo jornal El País, disse que certa noite foi convidado para jantar na mansão do brasileiro em Castelldefels, subúrbio rico da capital catalã. Achou que se tratasse de uma conversa a dois, no máximo para um grupo restrito. Havia uma multidão de amigos — os “tóis”, é claro, entre eles —, conhecidos e curiosos. Mascherano advertiu o companheiro de clube: “Se você fizer isso todos os dias, sua carreira se encurtará”. A vida na cidadezinha de Bougival, a oeste de Paris, segue a mesma toada elétrica, incessante, pontuada por patuscadas — sempre em português, porque Neymar não se esforçou para aprender coisa alguma de francês. Seu aniversário de 26 anos, realizado no luxuoso Pavillon Cambon, ao lado da Place de La Concorde, com a presença de toda a equipe do PSG e de celebridades ou subcelebridades, foi definido pela Paris Match como “uma louca noitada”.

Filho pródigo - O abraço de Tite na volta de Neymar, contra a Croácia, e a cena bíblica de Rembrandt do Museu Hermitage Andrew Boyers/Reuters/The Hermitage Museum/Reprodução

Na Rússia, quem há de baixar a bola de Neymar, esse seu estilo à Stavróguin, mercurial e imparável? A resposta é: Tite, o general rigoroso e paternalista como um cossaco. Mais de uma vez o treinador afirmou que Neymar é insubstituível, que tem sido injustiçado, com cobranças exageradas, mas não deixa de repreendê-lo quando estoura em campo. Os abraços de Tite no fim das partidas, demorados, são um modo de trazer Neymar à terra, de volta à realidade — lembram, nas fotos, com as mãos pousadas carinhosamente nas costas, A Volta do Filho Pródigo, a extraordinária tela de Rembrandt, do Museu Hermitage, em São Petersburgo, inspirada na parábola bíblica.

Neymar é o filho pródigo, sucessivamente perdoado, porque sem ele não haverá nenhum hexa na Rússia. O carinho de Tite com a estrela que brotou no Santos ecoa as palavras de Piotr Stiepánovitch, o líder do grupo niilista de Os Demônios, a Stavróguin:

— Stavróguin, você é belo! — bradou Piotr Stiepáno­vitch quase em êxtase. — Você sabe que é belo! O mais valioso em você é que às vezes você não sabe disso. Oh, eu o estudei! Frequentemente eu o olho de lado, de um canto! Em você há até simplicidade e ingenuidade, sabia disso? Ainda há, há! Vai ver que você sofre, e sofre sinceramente por causa dessa simplicidade.

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Para Neymar não há saída: a Copa da Rússia o levará ao céu ou ao inferno, sem meio-termo — ainda que ele possa, tanto na vitória quanto na derrota, mostrar a tatuagem do braço esquerdo, em que se lê: “Life is a joke” (A vida é uma piada). Muitas vezes é mesmo, mas as Copas não perdoam. Elas projetam ou dizimam as lendas do futebol.


‘Os Demônios’, de Fiódor Dostoiévski (tradução de Paulo Bezerra; Editora 34; 704 páginas; 98 reais) //Divulgação

Os Demônios, de Fiódor Dostoiévski, publicado em 1872, está à altura de Crime e Castigo e Os Irmãos Karamázov, as obras fundamentais do escritor russo. Ao mergulhar com realismo dramático no episódio do assassinato político de um jovem militante de um grupo niilista pelos próprios pares, “o romance se constitui numa antecipação em miniatura dos horrores que se registrariam nos séculos XX e XXI”, segundo o tradutor do volume para o português, Paulo Bezerra. Nikolai Stavróguin, que VEJA associa a Neymar, é um dos personagens centrais da trama. “Para Stavróguin, afeito a quebrar as normas e os tabus, tudo é permitido”, diz Flávio Ricardo Vassoler, doutor em letras pela USP, com pós-doutorado em literatura russa. “Neymar é assim.”

Publicado em VEJA de 13 de junho de 2018, edição nº 2586

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