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Tormenta à vista

Emparedado por setores prejudicados pelo acordo com caminhoneiros, governo ensaia recuar de promessas. Falta de confiança derruba bolsa e faz dólar disparar

Por Marcelo Sakate - 8 jun 2018, 06h00

Para dar fim à crise dos caminhoneiros, o governo Temer pode ter gestado uma crise ainda maior. Dez dias depois de declarar debelada a greve, à custa de um pacote de concessões à categoria e da generosidade involuntária do contribuinte, o governo assiste ao bombardeio de suas promessas pelo campo e pela indústria e mergulha numa crise de credibilidade que, aliada ao cenário internacional, fez a bolsa despencar e a cotação do dólar chegar perto de 4 reais — mais do que em fevereiro de 2016, no meio da turbulência que culminou com a queda de Dilma Rousseff.

A nova crise pega o governo em um momento particularmente delicado. Em todo o mundo, os mercados financeiros sofrem o efeito da elevação dos juros internacionais — sobretudo nos Estados Unidos. Nesse movimento do capital, o dinheiro tende a fugir dos países considerados mais arriscados para investimento. Já foram alvos de ataques especulativos a Argentina e a Turquia. Para muitos analistas econômicos, por suas vulnerabilidades políticas e econômicas, o Brasil é o próximo da fila. Na última semana, pesou também no humor dos investidores o fato de novas pesquisas eleitorais terem revelado o avanço de Jair Bolsonaro (PSL) e Ciro Gomes (PDT), dois candidatos que, na visão de especialistas, representam incerteza.

Nem bem começou a pôr em prática o pacote de concessões costurado para aplacar a revolta dos caminhoneiros, o governo começa a sentir que sua emenda saiu pior que o soneto. Ao longo da semana, o principal alvo de críticas foi a fixação de preços mínimos para o frete de mercadorias, com valores que chegam ao dobro dos que vinham sendo praticados no mercado quando vigorava a livre negociação do setor privado. Empresários do agronegócio e da indústria dizem que o tabelamento, além de ilegal, vai encarecer toda a cadeia produtiva. O governo enfrenta ainda dificuldades para viabilizar a redução de 46 centavos no litro do diesel nas bombas dos postos. Ao ceder ao pleito dos caminhoneiros de criar uma tabela com preços mínimos para o frete, Temer criou um novo foco de crise e chancelou uma aberração que afronta os princípios básicos de uma economia de mercado. Em julgamentos recentes, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) determinou que o tabelamento de preços por sindicatos (de trabalhadores ou patronais) é uma medida ilegal que fere a concorrência. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) classificou a medida como “um grande retrocesso”. Grupos que atuam na produção e na comercialização de grãos expressaram preocupação semelhante. Resultado da grita: o governo prometeu rever os valores. E os caminhoneiros, claro, já ameaçam nova paralisação.

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A questão central na origem da cri­se, a política de preços para os combustíveis, nem sequer está resolvida. O governo prometeu uma redução de pelo menos 46 centavos no preço do diesel na bomba em relação ao que era cobrado antes do paradão. As distribuidoras dizem que terão dificuldade para chegar ao desconto previsto: alegam que o corte seria, na verdade, de 41 centavos, porque o biodiesel que é acrescentado ao diesel não teve o custo alterado. Enquanto refaz as contas, o governo se lança em uma inusitada campanha populista. Ameaça distribuidoras e postos com multas e pede a ajuda da população para a fiscalização, como numa emulação dos tristes tempos dos “fiscais do Sarney”. Existem hoje no país 150 distribuidoras de combustíveis e 42 000 postos. Uma vez que não há a menor condição de averiguar o preço de cada um deles, restará ao governo punir meia dúzia para tentar passar o recado e preservar a pouca autoridade que ainda lhe resta.

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Acabou o modelo de reajustes diários dos combustíveis, introduzido em julho de 2017, mas não se sabe o que entrará no lugar. O governo transferiu a responsabilidade de definir a nova periodicidade à Agência Nacional do Petróleo (ANP), e esta, por sua vez, abriu uma consulta pública — outra clara “empurrada” com a barriga, dado que a atribuição da agência é tomar decisões sobre o setor, e não passar o abacaxi para a população. “Uma solução estrutural para a volatilidade no preço dos combustíveis só virá com o aumento da competição no setor de refino ou com alguma alteração na tributação”, reconheceu o diretor-geral da ANP, Décio Oddone. No início do ano, a Petrobras já havia alterado o modelo de reajuste para o gás de cozinha, que passou de mensal a trimestral. Mas esse é um produto de peso reduzido para o resultado da companhia, embora seja um item relevante entre as despesas domésticas das famílias mais pobres. A pressão no entorno de Temer é para que haja uma saída semelhante para a gasolina, mas o Ministério da Fazenda deixou claro que não existe espaço no orçamento para novos subsídios. A conta pode sobrar para a Petrobras. Pedro Parente, uma das estrelas da equipe de Temer e responsável pela recuperação da companhia nos dois anos em que a comandou, pediu o chapéu depois de perceber que continuaria sendo bombardeado por congressistas e pela ala política do governo contrária à flutuação de preços que ele implantou. Para seu lugar, foi nomeado o diretor financeiro da estatal, Ivan Monteiro (leia o perfil abaixo).

O quadro caótico castiga a economia. O governo, que já não dispunha de apoio dos eleitores, agora vê derreter a pouca confiança que mantinham nele investidores e parte do empresariado. O paradão dos caminhoneiros acabou, mas os transtornos que ele causou podem estar apenas no começo.


A solução caseira

Só restou ele - Ivan Monteiro: contra os ímpetos intervencionistas Ricardo Moraes/Reuters

A confirmação de Ivan Monteiro como o novo presidente da Petrobras conseguiu amortecer a onda de tremores que abalaram a estatal com a saída de Pedro Parente, em 1º de junho. As ações da companhia, que haviam caído 15% no dia da renúncia de Parente, subiram 8,5% assim que o conselho de administração confirmou Monteiro na presidência. Segundo especialistas, foi a melhor solução possível, diante das condições de pressão e temperatura da empresa e do país. Faltando apenas seis meses para o fim do governo de Michel Temer, não seria fácil recrutar um executivo de ponta que aceitasse assumir a companhia, sabendo que sua demissão seria consumada assim que o novo presidente subisse a rampa do Palácio do Planalto.

Na busca por uma solução caseira, Monteiro despontou como o único nome capaz de aplacar a desconfiança do mercado, temeroso da volta das intervenções de Brasília no preço dos combustíveis. Foi justamente seu desempenho à frente da diretoria financeira da estatal nos últimos três anos e quatro meses — durante a presidência de Aldemir Bendine e de Pedro Parente — que o credenciou a assumir o comando.

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A chegada de Monteiro à Petrobras, em fevereiro de 2015, coincidiu com o período mais agudo da crise da estatal. Soterrada pelas revelações da Lava-Jato, a empresa não conseguia fechar o balanço do terceiro trimestre de 2014, atrasado havia meses. Sua aprovação, em abril de 2015, foi a primeira prova de fogo cumprida pelo executivo. Depois disso, seu crédito com o mercado cresceu à medida que a dívida da companhia caía (de 100 bilhões para 81 bilhões de dólares).

Com 57 anos, Monteiro construiu sua carreira no Banco do Brasil, onde ingressou como escriturário aos 22. Nascido em Manaus, mas criado no Rio de Janeiro, foi designado para trabalhar em uma agência bancária em Santa Rita do Sapucaí, em Minas Gerais. Lá, formou-se em engenharia eletrônica no Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel). De volta ao Rio, percorreu toda a hierarquia do banco, de caixa a gerente de agências em Portugal e Nova York. Em 2009, passou a dar expediente em Brasília, ao se tornar vice-­presidente de gestão financeira e de relacionamento com o investidor. Foi então que seu caminho se cruzou com o de Bendine, que presidia o banco.

Monteiro permaneceu como um dos nove vice-presidentes de Bendine e seguiu com ele para a Petrobras, quando o chefe deixou a presidência do banco para assumir a petroleira no lugar de Graça Foster. Nessa época, Monteiro passou a ser conhecido como braço-direito de Bendine, fama que se transformaria em seu calcanhar de aquiles depois que Bendine foi condenado e preso pela Lava-Jato.

O nome de Monteiro nunca apareceu relacionado a irregularidades nem no Banco do Brasil nem na Petrobras. Também não se tem notícia de que tenha tido padrinhos políticos durante a carreira. “Ele construiu uma trajetória consistente, diferentemente do Bendine, que virou presidente de uma hora para outra, sem ser conhecido”, afirma um funcionário com mais de trinta anos de Banco do Brasil.

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Ninguém espera que Monteiro se torne um líder inspirador dos funcionários da estatal nos próximos seis meses. A expectativa é que ele continue domando a dívida da empresa e que consiga conter o ímpeto intervencionista do governo — o que, convenhamos, não é pouco.

Roberta Paduan

Publicado em VEJA de 13 de junho de 2018, edição nº 2586

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