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Todo o poder ao sutiã

Famosas do mundo inteiro estão dispensando a blusa na hora de se exibir em festas e tapetes vermelhos. Em parte, é moda. Em parte, atitude

Por Maria Clara Vieira e Bruna Motta - 27 abr 2018, 06h00

Inventado há pouco mais de 100 anos, o sutiã tem sua história emaranhada com a de outro fenômeno que deslanchou no século passado, o feminismo. Curiosamente, sua existência suscita argumentações ora para o mal, ora para o bem. Para o mal: o pedaço de tecido com dois bojos não tem nenhum uso prático a não ser aprisionar, esconder, escamotear uma porção exclusiva da anatomia feminina, como se fosse algo de que as mulheres devessem se envergonhar. Simbólico dessa interpretação é o muito propalado boato — que os fatos, aliás, não corroboram — de que elas queimaram sutiãs em fogueiras nos rebeldes anos 1960. Para o bem: a armação patenteada pela americana Mary Phelps Jacob em 1914 as liberou do aperto asfixiante do espartilho e, por tabela, dos rigores impostos por usos e costumes obsoletos. Vai nessa linha a recente adesão de celebridades, do Brasil e de fora, ao uso do sutiã sem blusa por cima em festas e tapetes vermelhos, uma atitude que, segundo especialistas, ecoa a fase atual de mais poder e protagonismo das mulheres.

“Na busca de igualdade no mercado de trabalho e fora dele, a mulher passou anos tentando aproximar seu visual ao dos homens, adotando blazers, ternos e camisas. Agora, a identidade feminina está sendo resgatada e ganha força. A exposição do sutiã é uma forma de assumir a feminilidade de maneira romântica e sensual”, diz a consultora de moda Tatiana Taurisano. A combinação de sutiã com calça, short ou saia é geralmente acompanhada de um casaquinho — aberto, evidentemente — jogado nos ombros. Bruna Marquezine, de 22 anos, a atriz famosa por si só mas que, ainda por cima, namora Neymar, experimentou e aprovou. Primeiro apareceu assim em sua festa de aniversário, usando um sutiã semitransparente preto com calça e casaquinho brancos. Há poucas semanas, ousou de novo na comemoração de uma amiga, na qual, no calor do funk, dispensou o paletó e foi até o chão de sutiã de renda e calça vermelha, provocando delírio nas redes sociais. Em festivais de música como o Lollapalooza, em São Paulo, em março, e o Coachella, nos Estados Unidos, em abril, as meninas esbanjaram torsos cobertos apenas de lingerie. Marina Ruy Barbosa, par a par com Marquezine no ranking das celebridades, usou o modelito short-sutiã-sapato de salto em um programa de TV; ao contrário da colega, não removeu o blazer branco.

Carla Diaz, Yasmin Brunet, Izabel Goulart e Charlize Theron Thiago Duran/AgNews; AgNews; Thiago Duran/AgNews; Carl F. Bucherer/Getty Images

O estilista Mário Queiroz, doutor em comunicação e semiótica e professor da Universidade Anhembi-Morumbi, de São Paulo, confirma que o sutiã à mostra é uma reafirmação da mulher poderosa dos tempos atuais. “Os seios estão sempre na pauta do discurso feminista. A convenção social não permite que eles sejam exibidos, e circular de lingerie é o mais próximo que se pode chegar.” Isso se reflete, segundo ele, no refinamento dos modelos: “Alguns lançamentos hoje parecem saídos da alta moda”. Há quem, como a modelo Izabel Goulart, faça de conta que está de blusa, cobrindo a peça de lingerie com um tecido transparente. Embora esse seja acima de tudo um visual para jovens, senhoras mais maduras — e muitíssimo bem conservadas — se arriscam a usá-lo, como Deborah Secco, de 38 anos, no lançamento de uma coleção de lingerie, e Charlize Theron, de 42, de Dior branco em pré-estreia de cinema. Fundadora do blog Modices, a carioca Carla Lemos, formada em publicidade, diz que já viu até moças caminhando na rua de lingerie à vista. “Em Nova York, com temperatura de 5 graus negativos, me aparece uma menina de sutiã e casaco de pele”, conta.

Àquelas que se dispõem a exibir o torso seminu — de preferência, em ambientes festivos —, a consultora de imagem Vanessa Marques lembra que há sutiãs e sutiãs. “O modelo triangular é adequado para quem tem peito maior, porque alonga a silhueta. Para as outras, o de bojo é mais indicado”, ensina. A indústria, por sua vez, acusa e festeja o novo status do artigo. Presente em todo o Brasil, a Loungerie, marca especializada em moda íntima feminina que vende 4,5 milhões de peças por ano, não dá números, mas confirma que a demanda por sutiãs e bralets, como são chamados os modelos que parecem blusinhas curtas, aumentou nos últimos meses. “O melhor é que agora eles são a peça principal em vez de meros acessórios”, comemora a diretora de produto Andrea Morales. Nem tudo é festa, porém. Na contramão do sutiã empoderador, adolescentes de escolas da Flórida acabam de dar partida a um movimento que contesta a obrigatoriedade não escrita do uso da peça em sala de aula, convocando um bracott, mistura de bra (sutiã) e boycott (boicote). É o sutiã, de novo, cumprindo sua sina de sustentar polêmicas. Entre outras coisas.

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Publicado em VEJA de 2 de maio de 2018, edição nº 2580

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