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Terra de bravos

Coluna publicada em VEJA de 22 de novembro de 2017, edição nº 2557

Por J. R. Guzzo 17 nov 2017, 06h00

Talvez nunca tenha sido tão fácil, como é agora, ser um sujeito valente no Brasil e no resto do mundo. Essa é a mais confortável das valentias. Rende palmas, cartaz nas classes intelectuais e puxação de saco por atacado — e o melhor de tudo, para grande alívio dos valentes, é que pode ser praticada sem risco nenhum. É como num filme de faroeste em que houvesse, de um lado, uma confortável multidão de mocinhos atirando com metralhadora .50, a uma distância segura do inimigo e de dentro de diligências blindadas Nível V — dessas que são privativas das Forças Armadas e capazes de resistir a um míssil Tomahawk. De outro lado, levando chumbo, uns bandidos e índios meia­-boca, desarmados e geralmente já caídos no chão. A plateia, cada vez que assiste a uma cena dessas, fica encantada com a turma da bala. Que coragem. Que heroísmo. Que exemplo. As “redes sociais” entram em festa. Os meios de comunicação fazem de cada episódio uma nova Batalha de Austerlitz. A sociedade que se acha “civilizada” comemora o massacre como mais um avanço para a humanidade.

Os exemplos dessa bravura sem risco, popular e lucrativa viraram o pão nosso de cada dia neste mundo da comunicação automática de tudo o que acontece, e mesmo do que não acontece. Um dos mais recentes e mais espetaculares tornou-se, também, um dos mais curiosos. Não apenas os heróis (no caso, heroínas) conseguiram suas medalhas de coragem por meio da execução de feridos indefesos, mas transformaram atitudes normalmente consideradas desprezíveis do ponto de vista moral em atos de virtude superior. Sabe-se com todos os detalhes o que aconteceu: uma série de atrizes americanas, em massa e em série, aparecem na imprensa e nas “redes sociais” acusando um veterano produtor de cinema de assédio sexual, ou pior do que isso, para lhes dar papéis em seus filmes. Não é nenhuma novidade: desde os tempos do teatro clássico da Grécia, 2 500 anos atrás, sempre acontecem coisas lamentáveis entre quem está na função de distribuir os papéis e quem está na situação de precisar deles. Só que, neste caso, as atrizes acusaram o produtor de fatos que ocorreram, segundo elas mesmas, 25 ou trinta anos atrás, ainda no século passado. O produtor, obviamente, foi reduzido a farinha de rosca em menos de um minuto. As atrizes viraram mártires.

Nunca se tinha falado de nada disso durante esse tempo todo — de repente, sem nenhum motivo especial para justificar a sequência de denúncias, as atrizes foram se lembrando do passado, uma depois da outra, e a coisa toda se transformou num crime contra “a mulher”. Não houve nenhuma tentativa de explicar por que as atrizes esperaram décadas para fazer suas acusações — ou por que deixaram que o bandidão, durante anos a fio, ficasse livre e solto para dar em cima de tantas outras moças que também queriam ser estrelas de cinema. Nenhuma palavra, igualmente, sobre uma questão básica nesse tipo de caso: as atrizes que hoje se apresentam como vítimas fizeram sexo com o produtor por vontade própria?

O fato é que nunca houve uma condenação contra o homem na Justiça americana; legalmente, ele não foi acusado de nada. Resulta, então, que o produtor exigia sexo para dar papéis; as atrizes, na hora, aceitavam a troca — e ganharam exatamente o que pretendiam, ou seja, os bons personagens nos filmes. Não se sabe se esse comércio ocorreu só uma vez com cada uma. O que se sabe é que, a partir daí, essas atrizes construíram carreiras que lhes deram fama e as deixaram milionárias. Hoje o produtor está liquidado, e elas não precisam mais nem dos papéis nem do dinheiro. Cheias de coragem, então, saíram a público após uma vida de terrores, e finalmente acusaram o seu carrasco. Tudo bem: ninguém tem o menor direito de exigir comportamento ético impecável de uma moça de 20 anos, ou algo assim, fascinada pelo sonho de ser atriz. Elas não fizeram, em suma, nada de errado. Mas, se ficaram quietas na hora de ir para a cama com o chefão, deveriam ter ficado quietas até hoje. Não podem estar certas, ao mesmo tempo, na mão e na contramão. Se tivessem agido desse jeito alguns anos atrás, seriam chamadas de mulheres de “mau­ caráter”. Hoje são Joanas d’Arc.

A mesma fogueira destruiu de um momento para outro toda a brilhante carreira do ator Kevin Spacey, também executado por fatos de um passado remoto. Difamou o ator Dustin Hoffman. Chutaram até um cachorro morto e enterrado como o ex-presidente da Fifa Joseph Blatter. Este é o mundo novo, afirma o tribunal de acusação; quem faz objeções a ele está num mundo que já morreu. É a nossa Terra de Bravos.

Publicado em VEJA de 22 de novembro de 2017, edição nº 2557

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