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Tempo e poesia

Coluna publicada em VEJA de 3 de janeiro de 2018, edição nº 2563

Por Roberto Pompeu de Toledo Atualizado em 31 jan 2018, 15h17 - Publicado em 29 dez 2017, 06h00

Que é o tempo? “Só sei a resposta quando não me perguntam”, escreveu Santo Agostinho. Para combatermos o mistério dessa entidade fluida, impalpável e invisível, inventamos subterfúgios como, ao fim de cada viagem do planeta em torno do Sol, pespegar-lhe um número novo. 2018 é o número da vez, e assim o tempo nos parece domável, cada pedaço dele em seu lugar (como se pudesse ser dividido em pedaços). O poeta T.S. Eliot invocou um dos mistérios do tempo no poema Burnt Norton (tradução de Ivan Junqueira):

“O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro
E o tempo futuro contido no tempo passado.
Se todo tempo é eternamente presente
Todo tempo é irredimível.
O que poderia ter sido é uma abstração
Que permanece, perpétua possibilidade,
Num mundo apenas de especulação.
O que poderia ter sido e o que foi
Convergem para um só fim, que é sempre presente”.

Conferir um número de série a cada ano equivale a aprisionar o tempo a um compartimento, a uma ordem, a uma classe, ele que, em sua natureza de corrente contínua, é irredutível a aprisionamentos. Guardávamos o tempo nas paredes, na forma do objeto graciosamente chamado de “folhinha”, como maneira de tê-lo lá parado, domesticado e compreensível. Continuamos a guardá-lo no bolso ou no pulso, no relógio ou no mostrador do celular. O poeta paulista Antônio Fernando De Franceschi brincou com as horas no poema Relógio:

“Meia hora antes / da hora meia seguinte / recue o ponteiro / outro tanto. / Retenha então a / hora certa, / a verdadeira, / e observe: / Para o instante / de agora faltará / aquele exato, / mesmo tanto, / e igual parte / até a hora / daqui meia hora. / Isso feito / e provado, / saberá que / em tempo / e verso, / todo relógio / é perverso”.

Encapsular o tempo é uma especialidade humana que combina engenho e arte, e gera efeitos práticos de inestimável valor. Através dos séculos acumulamos as formas de fazê-lo. Os relógios de pêndulo extraem do tempo um ritmo que o poeta americano Wadsworth Longfellow traduziu assim: “Forever — Never! / Never — Forever”. O poeta mineiro José Narciso Bedran deteve-se sobre o sino: “Remate da abóboda celeste, / o sino soletra setas nos ouvidos. / Taça esvaziada, vinho tomado, / espreita-nos como fechada questão, / emborcado para o infinito”.

O sino como que concentra um estoque de tempo em seu bojo para, na hora própria, liberá-lo aos gritos. O relógio de sol calcula o andamento do Sol, ardilosamente, projetando no chão o seu contrário, a sombra. Entre os medidores do tempo nada se compara, no entanto, ao objeto chamado ampulheta, tanto pela beleza da forma quanto pela crueldade de sua implacável determinação. O argentino Borges o descreveu no poema O Relógio de Areia (tradução de Josely Vianna Baptista):

“Pelo ápice aberto o cone inverso
Deixa cair a cautelosa areia,
Ouro gradual que se solta e recheia
O côncavo cristal, seu universo.
(…)
Não se detém jamais essa caída.
Eu me dessangro, não o vidro. O rito
De decantar a areia é infinito
E com a areia vai-se a nossa vida”.

A ampulheta enfrenta o tempo em seus próprios termos, com a mesma dose de mistério. Para Borges, a areia “parece ter sido imaginada / Para medir o tempo dos mortos”. A conclusão podia ser que, não importa o medidor em que se o aprisione, o tempo vence no final, e nos enterra. Mas não é esse o ponto destas linhas. É simplesmente dizer: “Feliz 2018”.

Publicado em VEJA de 3 de janeiro de 2018, edição nº 2563

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