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Tem que temer isso, viu?

O governo torna o anacronismo a imagem do futuro

– Eliete Bouskela, professora e pesquisadora da Uerj, tomou uma decisão temerária. Num país em que os bancos cobram, legalmente (!), juros que constrangeriam o mercador de Veneza shakespeariano, ela contraiu um empréstimo de 100 000 reais a ser pago em sessenta prestações.

– Em visita a Belo Horizonte, o economista sul-coreano Ha-Joon Chang descortinou um cenário preocupante, pura tempestade: “Sinceramente, o Brasil é um dos países que parecem estar voltando no tempo no seu desenvolvimento econômico”. Isto é, se mantida a política de inibição suicida de investimentos em áreas estratégicas, o governo Temer produzirá a mais radical desindustrialização da história econômica brasileira. Ponte de ponta-cabeça, os atos do presidente tornam o anacronismo a imagem do futuro que nunca chegará.

– Realista no tocante à lealdade da base aliada, o governo liberou generosamente emendas parlamentares e programas no valor de 15 bilhões de reais, a fim de estancar a sangria das denúncias contra o presidente.

– “Tem que manter isso, viu?” — virou o mantra do Congresso Nacional. Eis um passaporte nada diplomático que promete acesso direto ao Diário Oficial da União.

– O CNPq e a Capes, principais agências de fomento à pesquisa no Brasil, sofreram cortes tão absurdos que a própria comunidade acadêmica internacional manifestou sua incredulidade: pesquisas de ponta, e que já duravam mais de uma década, encontram-se seriamente ameaçadas. Nesse caso, por que ter começado a financiá-las? Ora, por exemplo, um montante, digamos, de aproximadamente 15 bilhões de reais levaria a ciência brasileira a um novo patamar. Portanto, ajudaria a transformar a realidade nacional.

– A professora titular Eliete Bouskela, membro da Academia Nacional de Medicina, contraiu o empréstimo para manter aberto o Laboratório de Pesquisas Clínicas e Experimentais em Biologia Vascular da Uerj, a oitava mais importante universidade brasileira, mas que se encontra sob ataque cerrado por mais de dois anos. O governo do Estado do Rio de Janeiro se compraz em atrasar sistematicamente os salários de seus servidores, assim como não repassa verbas básicas para a sua manutenção. A coleção de ternos Ermenegildo Zegna, feitos sob medida para o ex-governador Sérgio Cabral, seria mais do que suficiente para quitar a dívida da pesquisadora. Sucatear o futuro de um país, sempre vale a pena repetir, é crime muito mais grave do que tomar de assalto os cofres públicos.

– Educação, saúde, segurança, ciência e tecnologia somente frutificam se houver continuidade de recursos e constância de esforços. Se os cortes atuais forem mantidos, o governo Temer fará a roda da história retroceder pelo menos duas décadas.

– Finalmente, o projeto do governo se esclarece! O presidente e seus cúmplices sonham em concluir o mandato com o país de volta à década de 50. Ou seja, quando eram (talvez) jovens e ainda acreditavam (um pouco) no futuro do país.

– Tem que temer isso, viu?

Publicado em VEJA de 24 de janeiro de 2018, edição nº 2566