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Scaramucci na Casa Branca

O novo diretor de comunicação do governo americano dá um show de grosseria e mostra que liderar uma equipe — que dirá um país — não é o forte de Trump

Donald Trump se enxerga como um empresário de sucesso que pode empregar toda a sua experiência na iniciativa privada em prol da administração pública. Em seis meses como presidente dos Estados Unidos, dá para imaginar o que acontecia nas suas empresas. Paranoicamente preocupado com a lealdade, ainda não preencheu os 557 postos a que tem direito. Faltam 455. Para cargos-chave, convocou os próprios familiares. O mais grave é que ele não conseguiu montar equipes que possam trabalhar unidas e, efetivamente, governar o país. “Trump não sabe nem tem interesse em saber como a capital federal e o governo funcionam. Como resultado, ele trabalha numa Casa Branca incompetente e desleal”, diz Jennifer Lawless, professora da Universidade Americana, em Washington.

Na noite da quarta-feira 26, um dos mais recentes nomeados de Trump protagonizou um episódio grotesco. Com apenas seis dias no cargo, o diretor de comunicação, Anthony Scaramucci, fez uma ligação para um jornalista da revista The New Yorker exigindo o nome do funcionário que revelou uma informação interna, e ficou irritado porque obviamente não o obteve, pois a lei protege o sigilo de fonte. O jornalista publicou o conteúdo da irritação. Scaramucci esbravejou sobre sua rixa com o chefe de gabinete, Reince Priebus, que se opunha à sua nomeação. Chamou-o de es­quizofrênico e paranoico. Também criticou o estrategista-chefe de Trump, Steve Bannon, com palavrões impublicáveis de cunho sexual. Ao contrário de Bannon, disse Scaramucci, “eu não estou tentando construir minha imagem a partir da força do presidente. Estou aqui para servir ao país”. Para completar a escaramuça, Scaramucci ameaçou demitir todo o Departamento de Comunicação da Casa Branca. Dois dias depois, Priebus deixou o cargo.

Uma semana antes, o próprio presidente iniciou uma campanha pública de difamação contra um dos membros de sua equipe, o secretário de Justiça, Jeff Sessions, que foi o primeiro senador republicano a apoiar Trump, ainda nas primárias. Os dois tinham visões convergentes, pois acreditavam que os Estados Unidos viviam uma crise de violência, algo que as estatísticas desmentem. Nem a agenda em comum, porém, foi capaz de criar algo produtivo. Em uma sequência de críticas públicas, Trump disse que nunca teria nomeado Sessions se soubesse que ele tomaria a decisão de se afastar da investigação federal do Russiagate, sobre a influência russa nas eleições do ano passado. Na terça­-feira 25, Trump o chamou de “fraco” e se disse decepcionado.

A comunicação entre os militares e o presidente também não anda boa. Na quarta-feira, Trump anunciou no Twitter que transgêneros não serão mais aceitos nas Forças Armadas do país, o que pegou muitos de seus principais chefes militares de surpresa. No Congresso, Trump também não consegue avançar. Durante a semana, os parlamentares aprovaram um pacote de sanções econômicas contra a Rússia, país com o qual Trump pretendia melhorar a relação, e ainda incluíram medidas para dificultar que o presidente amenize as punições no futuro. No Senado, os republicanos não chegaram a um acordo sobre uma obsessão do partido: substituir a reforma de saúde de Barack Obama, o que foi mais uma derrota de Trump. Entre as vozes dissonantes estava a do veterano John McCain, que conseguiu retornar a tempo depois de ser operado de um câncer no cérebro. Para a velha guarda republicana, há cada vez menos incentivo para apoiar Trump, cuja personalidade ingovernável está levando os Estados Unidos ao desgoverno.

Publicado em VEJA de 2 de agosto de 2017, edição nº 2541