Clique e Assine a partir de R$ 19,90/mês

Salvei o que deu

Biólogo do Museu Nacional, Paulo Buckup, 59 anos, enfrentou as chamas e resgatou parte do acervo

Por Paulo Buckup 7 set 2018, 07h00

Estava trabalhando em casa quando soube do incêndio pelas redes sociais. Logo pesquisadores de vários países começaram a disparar mensagens em meu celular. Não tive dúvida: dirigi até o museu, perto de onde moro, para tentar ajudar a salvar o que desse. Quando cheguei, as chamas já tomavam a parte da frente do prédio. Andei em direção aos fundos, área que o fogo ainda não havia alcançado. Vi uma confusão de gente envolta em fumaça: os bombeiros, meio desorganizados e sem reação, não tinham água, equipamento nem, acho, efetivo em número adequado para um incêndio daquela magnitude. Demorou horas até que os carros-pipa aparecessem.

Entrei no térreo junto com um técnico que conhecia muito bem o acervo. Não foi fácil. Tivemos de arrombar a porta com os pés, usando de força, nos ferindo um pouco, e caminhar no escuro. Uns 10 metros adiante, encontramos os armários que guardavam exemplares únicos de moluscos, referência mundial para a descrição de várias espécies — material insubstituível para a ciência. Arrancamos as gavetas dos trilhos e as levamos para fora. Perdi as contas de quantas vezes entrei e saí do prédio: vinte vezes, talvez mais, por cerca de duas horas. Resgatei ainda computadores com arquivos valiosos sobre a biodiversidade brasileira, localizados em pequenas salas que íamos explorando enquanto havia tempo. O fogo avançava e iluminava todo o museu. Tentei entrar na área da paleontologia, mas aí começaram a despencar fragmentos, alguns em chamas. Achei que poderia cair vidro. Ficou perigoso e tivemos de sair. Não arredei pé da frente do museu, olhando aquele espetáculo triste até as 4 da manhã. Fiz o que pude. Salvei o que deu.

Mentalmente, havia vivido essa situação muitas vezes. Conhecia as condições precárias do museu, sabia que uma tragédia poderia acontecer. Trabalho em um prédio vizinho, no Departamento de Vertebrados, que também corre sérios riscos, apesar de toda a sua riqueza — são reunidos ali até 2 milhões de animais para pesquisa. Neste último ano, viramos chacota. Professores e funcionários tiveram de comprar do próprio bolso lâmpadas e ainda aprender a substituir luminárias. Dispomos de um sistema de climatização avançadíssimo, com controle central, mas ele não está funcionando por falta de manutenção. Várias vezes fiquei sem saber o que dizer a pais de alunos que trabalhavam no verão em condições absolutamente intoleráveis. O sistema de sprinklers precisa ser acionado manualmente; o alarme não funciona mais.

Os governantes têm de entender que esse incêndio não levou apenas uma fração do passado — ele atinge em cheio o presente e pode ceifar o futuro de pesquisas de alto valor para o país. Daqui para a frente, espero que o museu seja aos poucos reconstruído, na medida do possível, claro. Foram-se embora registros preciosos da vida brasileira, da cultura e da ciência. Aquele prédio era a sede da Coroa portuguesa, onde o império se instalou e capítulos de nossa história se desenrolaram. Até a semana passada, abrigava um vigoroso centro de produção de conhecimento, com cursos de pós-graduação de excelência. Eu e outros colegas que entraram no prédio em meio ao incêndio fizemos apenas o que dava no pequeno espaço de tempo determinado pelas chamas. Parte do material que sucumbiu ao fogo pertencia a pesquisas de amigos que dedicaram a vida a elas. Vi muitos chorando, como se estivessem em um funeral. A obra de cada um deles estava em jogo. Precisamos garantir as condições para que sigam adiante. Se eu tivesse perdido tudo o que fiz em 24 anos de museu, sinceramente, só voltaria lá para me despedir.

Depoimento dado a Fernando Molica

Publicado em VEJA de 12 de setembro de 2018, edição nº 2599

Continua após a publicidade


Publicidade

Essa é uma matéria exclusiva para assinantes. Se já é assinante, entre aqui. Assine para ter acesso a esse e outros conteúdos de jornalismo de qualidade.

Essa é uma matéria fechada para assinantes e não identificamos permissão de acesso na sua conta. Para tentar entrar com outro usuário, clique aqui ou adquira uma assinatura na oferta abaixo

Informação de qualidade e confiável, a apenas um clique. Assine VEJA.

Impressa + Digital

Plano completo da VEJA! Acesso ilimitado aos conteúdos exclusivos em todos formatos: revista impressa, site com notícias 24h e revista digital no app, para celular e tablet.

Colunistas que refletem o jornalismo sério e de qualidade do time VEJA.

Receba semanalmente VEJA impressa mais Acesso imediato às edições digitais no App.

a partir de R$ 39,90/mês

Digital

Plano ilimitado para você que gosta de acompanhar diariamente os conteúdos exclusivos de VEJA no site, com notícias 24h e ter acesso a edição digital no app, para celular e tablet.

Colunistas que refletem o jornalismo sério e de qualidade do time VEJA.

Edições da Veja liberadas no App de maneira imediata.

a partir de R$ 19,90/mês