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“Saí de uma premiação em Nova York me sentindo envergonhada”

Ao ser laureada como uma das negras mais influentes do mundo,Taís Araújo ficou orgulhosa, mas incomodada com a falta de políticas públicas do Brasil na área

Por Taís Araújo 17 nov 2017, 06h00
//VEJA

“Recentemente, eu e Lázaro fomos a Nova York para receber um prêmio muito especial, o Mipad, que tem apoio da ONU e distinguiu os 100 jovens negros mais influentes do mundo. Esse reconhecimento nos deu orgulho. Ao mesmo tempo, contudo, saí da premiação me sentindo envergonhada. Ao ter contato com pessoas de países tão distintos como os Estados Unidos, a África do Sul ou o Quênia, ficou claro quanto o Brasil está atrasado na implantação de políticas para resgatar a contribuição histórica da sua população de origem africana. Sim, a palavra é contribuição: é preciso reconhecer o valor que todos os negros têm na construção do Brasil. E contar a história certa.

Saí do evento com a sensação de que há uma lacuna imensa na valorização da identidade africana entre nós. Somos o segundo país com mais negros no mundo, só atrás da Nigéria. Mas não fazemos questão de cultivar uma ligação com a terra dos antepassados de tantos brasileiros. Pude perceber isso numa conferência em que lideranças de diversos países falaram sobre as propostas de seus governos nessa área. O Brasil foi deixado por último, pelo constrangedor motivo de que não enviou nenhum projeto. Os Estados Unidos e a Europa, por mais problemas que tenham com preconceito, estão muito à frente de nós. E me dei conta do total vexame brasileiro ao constatar que até países com herança africana muito menor, como a Colômbia e a Venezuela, prestaram contas do que estão fazendo.

Nossa lacuna é escancarada por um detalhe: aqui o termo afrodescendente nunca pegou. Sempre que os negros tentaram usá-lo, isso foi visto como pedantismo politicamente correto, um rótulo que só serviria para realçar as divisões raciais. Não é verdade. Assumir-se como afrodescendente é fator de reconhecimento mútuo. No Brasil, todos sabem a sua origem quando ela é europeia. Eu mesma sei que minha avó por parte de pai era austríaca e que tenho sangue português do meu avô materno. Mas desconheço a origem de meu lado africano. Refletir sobre a diáspora africana é essencial para construir nossa identidade — a reboque disso vêm a autoestima e a consciência dos direitos. É triste saber que o Brasil não tem priorizado o tema em suas políticas públicas. Uma coisa, no entanto, me dá esperança: saber que há muita gente séria na sociedade civil trabalhando para mudar essa realidade.

É importante ressaltar que a luta não é só dos negros, mas de todos. Só reconhecendo o valor dos brasileiros pobres e dando autoestima e educação a eles, independentemente da cor de sua pele, vamos fazer as pazes com nossa história.”

Depoimento a Marcelo Marthe

Publicado em VEJA de 22 de novembro de 2017, edição nº 2557

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