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Qualquer forma de amor

Uma faxineira muda e uma criatura anfíbia presa em um laboratório se apaixonam: em 'A Forma da Água', de Guillermo del Toro, nada é impossível

 (//VEJA)

Quando a criatura respira mais forte, a crista nas suas costas e as suas guelras se agitam na mesma intensidade da exalação, e nota-se como é translúcida a carne de que são feitas — tão tenra quanto uma cartilagem que ainda não se tenha formado por inteiro. Com sua pele lisa e úmida, também ela delicada, deve ser excruciante a dor provocada pela argola de ferro quase cru, comido pela ferrugem, que abraça seu pescoço. Conforme quem a vê, a criatura pode parecer bela ou horrível. Mas ninguém ficaria em dúvida sobre a instalação subterrânea em que ela está presa, e onde vem sendo estudada e torturada: a luz lúgubre, o encardido dos azulejos, o cinza institucional das paredes, os estranhos aparatos e as ocasionais poças de sangue no chão de concreto — quem entra num lugar assim não sai mais. Não com vida, ao menos. Em A Forma da Água (The Shape of Water, Estados Unidos/Canadá, 2017), que estreia no país nesta quinta-feira com treze indicações ao Oscar — cinco a mais que o segundo colocado, Dunkirk —, muito depende dessa imersão do espectador no ambiente, seja ele esse laboratório militar em que nenhuma luz natural penetra, ou os velhos apartamentos gêmeos de Elisa (Sally Hawkins) e de seu amigo Giles (Richard Jenkins), encarapitados sobre um cinema decadente, em que quase se sente nos dedos o puído dos estofados e onde, no fim da tarde, a luz que entra pelo semicírculo dos janelões se difunde nas partículas de poeira que flutuam preguiçosas.

O mexicano Guillermo del Toro é um mestre em criar esses mundos táteis, de texturas que, na tela, parecem ainda mais vívidas que no mundo real. É mestre, também, em ver o belo onde outros enxergam o feio ou o assustador. E Elisa, a faxineira órfã e muda que faz o turno da noite na instalação militar, está aqui no lugar do diretor, persuadindo a plateia de que o monstro anfíbio (Doug Jones) encontrado nas águas da Amazônia não é feio nem assustador — nem sequer é monstro. Para Elisa, aliás, ele é divino: alguém que, como ela, não é compreendido, mas que a compreende completamente. A princípio curiosa com o achado que chega num tanque lacrado (a criatura pode ser bastante perigosa), Elisa às vezes se esgueira para dentro do laboratório e lhe faz pequenas oferendas de paz — um ovo cozido tirado do seu lanche, um sorriso cauteloso, uma palavra soletrada com as mãos.

Em pouco tempo, estão ambos apaixonados, e Elisa começa a conceber um plano para resgatar o monstro do sádico Richard Strickland (Michael Shannon), o homem que o capturou na selva e que quer destruir essa que ele considera uma abominação — de preferência, causando-lhe muita dor. A exemplo do que se vê em outros filmes de Del Toro, como Hellboy e o magnífico O Labirinto do Fauno (com o qual A Forma da Água faz par, no sentimento e no arrebatamento visual), esse ódio e esse desejo de suprimir são expressão de uma estreiteza muito humana — o medo do que excita ou do que não se compreende. Quando conjugada ao poder, porém, ela torna-se formidavelmente destrutiva. E destrói, antes de mais nada, o próprio homem que cultiva esses sentimentos: é Strickland o monstro aqui — não a criatura que, na memória afetiva de uma parte da plateia, simpaticamente evoca a do clássico B O Monstro da Lagoa Negra, de 1954.

O verdadeiro horror – Shannon como o captor da criatura: crueldade humana

O verdadeiro horror – Shannon como o captor da criatura: crueldade humana (Kerry Hayes/Divulgação)

Por mais inimigos que tenha, contudo, Strickland é intocável: está-se em 1962, Estados Unidos e União Soviética podem a qualquer momento se engalfinhar num conflito nuclear, e a criatura é considerada assunto de segurança nacional. Os cientistas do projeto, como o doutor Robert Hoffstetler (Michael Stuhlbarg, o ator onipresente deste ano), perderam sua autoridade para Strickland. Que é bruto, mas não burro. Ninguém nota Elisa e sua inseparável colega de faxina Zelda (Octavia Spencer, um deleite); elas são parte da paisagem habitual da instalação — mas não para Strickland, que adivinha a inteligência e a iniciativa da dupla. (Se há algo que nem o lúbrico Strickland seria capaz de conceber, são os momentos de sexo entre Elisa e a criatura — pelos quais Del Toro merece nota “A” em erotismo evocado à revelia de qualquer senso comum.)

Desde a recepção estrondosa que obteve no Festival de Toronto, em setembro, A Forma da Água vem sendo cotado como o líder provável na disputa do Oscar. Algumas semanas atrás, entretanto, outro candidato forte despontou — o corrosivo Três Anúncios para um Crime, que recebeu sete indicações e deve estrear no Brasil em 15 de fevereiro. Há quem interprete essa divisão das preferências como sintoma de uma concorrência entre duas visões opostas de mundo, uma mais otimista e a outra, pessimista (ou realista, diriam alguns). Trata-se de uma simplificação tosca: ambos os filmes partem da constatação de que não há horror inventado que se compare àquele que os homens perpetram uns contra os outros. Mas ambos acreditam também que há, no ser humano, alguma qualidade que pode ser tão primordial quanto a barbárie: a bondade, no caso de Três Anúncios…, e a imaginação, no caso de A Forma da Água — esta, para Del Toro, uma força tão transformadora que pode até criar novas realidades. Como a do amor genuíno, que tudo vence, entre uma moça muda e uma criatura saída das águas.


As indicações

Melhor filme

Diretor Guillermo del Toro

Atriz

Sally Hawkins

Ator coadjuvante

Richard Jenkins

Atriz coadjuvante

Octavia Spencer

Roteiro original

Montagem

Fotografia

Trilha sonora

Mixagem de som

Edição de som

Direção de arte

Figurino

Publicado em VEJA de 31 de janeiro de 2018, edição nº 2567