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Presidente non grato

Investigação da PF afeta planos de alianças eleitorais e avança sobre familiares de Temer, vaiado ao tentar “solidarizar-se” com vítimas de tragédia em SP

Por Edoardo Ghirotto - 4 maio 2018, 06h00

O susto foi grande a ponto de Michel Temer optar por desmarcar em cima da hora uma viagem a quatro países da Ásia agendada com meses de antecedência. O constrangimento diplomático foi o preço que o presidente preferiu pagar para poder estar perto da família num momento em que as investigações da Lava-Jato avançam sobre sua filha Maristela Temer. Na quinta-feira 3, ela foi chamada a prestar depoimento na sede da Polícia Federal, em São Paulo, para explicar o motivo pelo qual recibos de reformas feitas em sua casa foram encontrados no escritório de João Baptista Lima Filho. Velho amigo de Temer, o “coronel Lima” é apontado por dois delatores como o homem que recebia propina em nome do presidente.

O depoimento de Maristela ocorre em um momento especialmente tenso para seu pai. Segundo reportagem do jornal Folha de S.Paulo, a Polícia Federal investiga a relação entre reformas e compras de imóveis da família Temer e propinas que teriam sido recebidas por Lima. A reforma na casa de Maristela e outra na casa da sogra de Temer, Norma Tedeschi, por exemplo, ocorreram no mesmo ano (2014) em que o delator Ricardo Saud, ex-diretor da JBS, declarou ter repassado 1 milhão de reais ao coronel. Também naquele ano, um dos sócios da Engevix, José Antunes Sobrinho, disse ter dado 1 milhão de reais a Temer por intermédio do mesmo Lima, segundo sua proposta de delação que jamais prosperou.

São acusações gravíssimas. Em resposta a elas, Temer fez um contundente pronunciamento à imprensa, que incluiu socos na mesa e a afirmação de que era alvo de “mentiras”. A enérgica reação do presidente não é necessariamente proporcional à sua preocupação. Pessoas de seu círculo próximo duvidam que a nova linha de investigação da PF possa resultar no pior. Leia-se: uma terceira denúncia na Justiça com consequências políticas relevantes. Isso porque, mesmo que os investigadores tenham êxito em provar que o dinheiro pago a Lima serviu para comprar imóveis e reformar a casa de familiares de Temer, a probabilidade de o caso evoluir a ponto de ameaçar seu mandato é praticamente nula. Primeiro, porque a PF pediu uma prorrogação de sessenta dias da investigação. Depois, porque uma eventual denúncia do Ministério Público, findo esse período, coincidiria com o aperto do calendário legislativo em ano eleitoral — em outras palavras, pegaria deputados bem mais preocupados com a própria reeleição do que com o destino presidencial.

Para aliados de Temer, o maior dano decorrente dos avanços das investigações está na perda de seu já parco capital político. O MDB barganha a construção de uma coligação que una o partido com o DEM e o PP no intuito de chegar ao segundo turno da eleição presidencial. Nenhuma sigla até agora, porém, se mostrou disposta a se atrelar a Temer e seus minguados 6% de aprovação. O tucano Geraldo Alckmin tampouco se animou em avançar nas conversas sobre uma possível aliança com o MDB, que incluiria Henrique Meirelles como provável vice.

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Nas ruas, as coisas não vão melhor para o presidente. Exemplo do apreço popular que ele desfruta foi visto na terça-feira 1º. Na tentativa de solidarizar-se com as vítimas do desabamento do Edifício Wilton Paes de Almeida, em São Paulo, Temer foi ao local, deu uma entrevista em que disse que “ficaria muito mal não comparecer” e acabou sendo xingado e vaiado. Retirado do lugar às pressas, partiu em visita ao interior de São Paulo, passando em cidades que abrigam polos agropecuários. Investigado pela polícia, hostilizado por eleitores e com pouco a oferecer aos aliados, Temer vive seu pior momento desde que foi acusado na delação do empresário Joesley Batista.

Publicado em VEJA de 9 de maio de 2018, edição nº 2581

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