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Pipocas às claras

Salas de cinema são lugares onde é possível buscar refúgio das preocupações cotidianas. Eis um benefício que o juiz Sergio Moro não pôde desfrutar

Questionado se costuma ir ao cinema, o personagem de um conto do escritor americano Charles Bukowski (1920-1994) responde: “Geralmente apenas para comer pipoca no escuro”. Salas de cinema têm disso: mesmo quando exibem filmes ruins, são lugares onde se pode buscar refúgio, por um par de horas que seja, do mundo externo e das preocupações cotidianas. Eis um benefício que o juiz Sergio Moro, que julga os processos da Lava-Jato em primeira instância em Curitiba, não pôde desfrutar na segunda-feira 28, ao comparecer à pré-estreia do filme Polícia Federal — A Lei É para Todos (veja a resenha). Primeiro porque ele e Marcelo Bretas, responsável pela Lava Jato no Rio de Janeiro, eram o centro das atenções na exibição. Chegaram escoltados por oito guarda-costas. E, quando Bretas ofereceu pipoca ao colega, o gesto não foi protegido pelo escurinho providencial, mas escancarado pelos flashes dos fotógrafos. Segundo porque, afinal, mundo externo e preocupações cotidianas se confundiam com o que estava na tela, na qual Moro se viu interpretado pelo ator Marcelo Serrado — de maneira muito favorável, aliás. Não que o juiz precise disso. Uma pesquisa do instituto Ipsos indica Moro como a personalidade mais popular da política e do Judiciário brasileiros, com 55% de aprovação. O índice, porém, já foi maior. Em tempo: o conto de Bukowski foi publicado sob o título “Morte ao entardecer”, uma referência a um livro homônimo sobre touradas de seu conterrâneo Ernest Hemingway (1899-1961), que, lá pelas tantas, diz: “Qualquer coisa capaz de despertar paixão a seu favor certamente despertará paixão contrária na mesma medida”.

Publicado em VEJA de 6 de setembro de 2017, edição nº 2546