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Peterson da Cruz: “A família não aceitava”

Coreógrafo que brilha no 'America’s Got Talent' conta como saiu de uma favela e venceu a oposição em casa para criar uma trupe de ginástica na Áustria

Como está sendo a experiência de participar de um sucesso em rede nacional nos Estados Unidos? Fomos quase recebidos com tapete vermelho no America’s Got Talent. Eles têm o poder de fazer você virar uma estrela ou passar pela humilhação mundial. O que eu fiz no palco, faço todo dia. Aquele era o dia da decisão, e eu sabia que seria exaltado ou destruído. Faço isso há 22 anos, e foi de longe a melhor apresentação da minha vida. Mas quase recusei fazer o programa.

Por quê? Tive uma horrível experiência na versão francesa. Pedi à produção colchões para forrar o chão e não machucar os ginastas, se algo saísse errado, e nos deram um carpete fino. Sou responsável por 55 pessoas. Não iria lançar meus ginastas a 7 metros do chão só com um carpete de proteção.

Como surgiu seu grupo de dança, o Zurcaroh? Eu não era bom em nada. Não sei jogar bola e ia mal na escola. A única coisa que sabia fazer era montar shows e coreografias. Em 2007, participei de um evento de ginástica na Áustria e conheci minha ex-mulher. Trabalhava com comércio exterior no Brasil, mas já tinha minha trupe. Larguei tudo e comecei uma vida nova na Áustria. E aí surgiu a oportunidade de montar um grupo de ginástica do zero. O curioso é que só agora, com o programa de TV americano, o Brasil se ligou que eu existo. Gostaria de fazer o que eu faço no país e até tentei promover projetos sociais. Ninguém se interessou. Voltei desiludido. Falta estímulo: nunca fui valorizado no Brasil.

Era estimulado em casa, pelo menos? Não me sentia bem-vindo no âmbito familiar. Vim de uma favela em São Paulo. Minha mãe era nova e se separou do meu pai quando eu tinha 5 anos. Fui então para a casa dos meus avós. O primeiro bullying que sofri, num tempo em que nem se falava disso, foi dentro de casa: minha família foi a primeira a me criticar. Hoje, dançar faz parte da cultura brasileira. Mas antes nenhum menino dançava. Fiz balé, ginástica, e a família não aceitava. Acho que é por isso que gosto tanto do meu grupo na Áustria: encontro nele tudo o que a minha família não me deu.

Acredita que pode ganhar o prêmio de 1 milhão de dólares na final do America’s Got Talent, em setembro? Não. Mas queria muito chegar à final. A produção nos financiou em tudo: só de estada para minha equipe, foram quase 320 000 dólares. As 55 passagens, cerca de 700 000. Então o prêmio, de certa forma, nós já recebemos.

Publicado em VEJA de 11 de julho de 2018, edição nº 2590