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Pela tolerância nas redes sociais

O desafio de 2018 será fazer da internet um espaço ao mesmo tempo democrático e avesso ao ódio

“Criamos esta comunidade com a qual as pessoas da nossa universidade podem se conectar. Mas certamente alguém vai construir algo semelhante para o mundo todo.” Assim o americano Mark Zuckerberg, então aluno da Harvard, concluiu, em 2004, a apresentação de um site que estava pondo no ar — o Facebook. A declaração evidencia que ele, até hoje CEO da companhia, não tinha noção do tamanho que a sua criatura alcançaria. Nove anos mais tarde, com o Facebook já consagrado, Zuckerberg assumiu a sua, digamos assim, “falta de visão” do espetacular futuro a que seu empreendimento estava destinado: “Isso não tinha sequer passado pela minha mente”.

Em 2017, o Facebook ultrapassou os 2 bilhões de usuários, o que fez dele o “país” mais populoso do mundo — a China tem 1,3 bilhão de habitantes. Com tal porte, era previsível que essa ágora virtual fosse tomada de assalto por problemas complexos, do mesmo modo que suas concorrentes, como Twitter, Instagram e YouTube. Os exemplos se multiplicam: a proliferação das notícias falsas (as fake news); o comprometimento da privacidade dos dados dos usuários; a divulgação de vídeos ao vivo em que se exibem crimes; o compartilhamento de imagens de pessoas nuas sem o consentimento delas — para não falar do verdadeiro festival de intolerância e do uso distorcidamente político que proliferam nessas plataformas. O que é publicado nas redes já ganha tamanha dimensão que se mostra capaz de afetar o resultado de eleições presidenciais ou acabar com a carreira de indivíduos — como foi o caso do jornalista William Waack, em novembro, afastado da Rede Globo após o vazamento de comentários racistas que fez.

Se as dificuldades enfrentadas pelas redes sociais são proporcionais às suas dimensões, o modo como elas reagiram aos tormentos seguiu fases que se assemelham às do desenvolvimento de uma pessoa: primeiro, uma infância de birras; depois, uma adolescência onipotente; e, por fim, a idade da razão. O ano de 2017 marcou exatamente a entrada das redes nesse estágio de amadurecimento. Isso porque as empresas por trás delas passaram a admitir os problemas de seu crescimento e a se importar com eles, adotando medidas de prevenção e mitigação.

Ao tempo do surgimento de todos os sites que hoje atendem pela expressão “redes sociais”, entre meados dos anos 2000 e o início da década de 2010, as companhias desprezavam as questões que nasciam junto com elas. Agiam como crianças teimosas. Em 2007, por exemplo, o Facebook foi criticado pelo lançamento de um programa de atração de anunciantes, o Beacon. Desconfiava-se que a empresa estaria capturando alguns dados sigilosos de usuários, sem aviso prévio, para que servissem de base para a criação de anúncios. Diante das queixas, Zuckerberg minimizou o problema, desviando-se da questão. Logo depois, confirmou-se que o receio tinha motivo — e a empresa reformulou sua estratégia (leia abaixo algumas reações do CEO).

Com centenas de milhões de usuários, cofres abarrotados e poder em ascensão, as redes então entraram na adolescência ao adotar um discurso na linha “sempre estamos certos, não adianta reclamar”. Vide como o Twitter se portou diante da estimativa de que cerca de 10% dos perfis nele registrados, entre 2010 e 2014, eram falsos — atendendo, muitas vezes, a propósitos escusos, como aumentar a popularidade de um político. Sem cerimônia, a companhia afirmou que nada tinha a fazer, pois seus usuários podiam se expressar como quisessem. Já em 2016, nos períodos finais da “adolescência”, Zuckerberg fez pouco-caso das reclamações de como o Facebook tinha virado um palco de inverdades. Disse ele: “Muito do que estão chamando de notícias falsas são apenas opiniões”.

Era o último sopro de arrogância da puberdade. Em 2017, por causa, principalmente, da pressão popular e da imprensa, as empresas que administram as redes sociais começaram a apresentar medidas de combate às questões cuja existência anteriormente preferiam negar. Só nos primeiros dez meses deste ano, o Facebook divulgou a contratação de 3  000 funcionários encarregados de identificar abusos cometidos por usuários; anunciou a implementação de táticas para derrubar perfis que serviam de base para discursos de ódio; e lançou ferramentas para coibir o “pornô de vingança” (quando alguém espalha imagens nuas de um ex-namorado ou ex-namorada). A mudança de postura também pôde ser notada no YouTube, que, entre outras novidades, disponibilizou uma atualização com o objetivo de eliminar vídeos de teor possivelmente terrorista. Resultado: nos primeiros seis meses deste ano, 150 000 gravações desse tipo foram apagadas.

Reação rápida – Diante do racismo on-line no país, as empresas têm deletado prontamente os ataques, como no caso de Monalysa Alcântara, miss Brasil 2017

Reação rápida – Diante do racismo on-line no país, as empresas têm deletado prontamente os ataques, como no caso de Monalysa Alcântara, miss Brasil 2017 (Danilo Borges/Divulgação)

No Brasil, onde, de acordo com um levantamento da agência de publicidade nova s/b, posts racistas são os mais frequentes entre os que incitam a intolerância, as redes têm deletado rapidamente tal tipo de conteúdo (veja na pág. ao lado). Outro bom exemplo de amadurecimento foi a reação de Zuckerberg ao escândalo sobre companhias­-fantasma russas que teriam usado o Facebook para tentar interferir nas eleições que conduziram Trump à Casa Branca. Ele assumiu o erro antes de qualquer vazamento de informação e se dispôs a desenvolver softwares capazes de impedir que algo similar voltasse a ocorrer.

Com a chegada à idade da razão das redes sociais, é possível projetar a maneira de elas trabalharem, em parceria com a sociedade, para aumentar a eficácia do combate a todos esses problemas. Uma evolução, aliás, que já começou a se consolidar. Em novembro, Facebook e Google desistiram de contestar um projeto de lei do Congresso americano que permitiria às vítimas do tráfico de pessoas para fins sexuais processar sites que servem de plataforma involuntária para a ação dos criminosos. Ao que tudo indica, as empresas entenderam que entre os seus deveres está a luta contra práticas ilegais. Na Europa, Alemanha, França e Inglaterra firmaram iniciativas que podem servir de modelo. Uma nova lei alemã, que passou a vigorar em outubro, obriga as redes a deletar conteúdos considerados ofensivos pela Justiça, como os de teor xenófobo, em até 24 horas. Já a Inglaterra estabeleceu um limite de duas horas para que as mídias sociais reajam à publicação de mensagens extremistas, como as veiculadas pelo Estado Islâmico. Em fevereiro, na França, Google e Facebook se uniram a veículos de imprensa para lançar o projeto CrossCheck — estuda-se implantá-lo também no Brasil, visando às eleições de 2018 —, cuja intenção foi verificar notícias falsas acerca dos candidatos à disputa presidencial que ocorreu em maio e levou Emmanuel Macron ao poder. Porém, o esforço, bem recebido, não foi suficiente para exterminar as falácias: estima-se que um quarto dos links compartilhados em mídias sociais sobre o pleito era de fake news, e perto da metade deles tinha ligação com companhias sediadas na Rússia.

É preciso, no entanto, ampliar a cautela para que ações dessa natureza não descambem em censura. Tome-se como exemplo a situação brasileira. Com a possibilidade de o compartilhamento de notícias falsas afetar as eleições de 2018, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) anunciou o estudo de medidas para impedir que isso ocorra. No cargo de presidente do TSE, o ministro Gilmar Mendes criou um conselho, com representantes do próprio tribunal, da Agência Brasileira de Inteligência e do Exército, cuja meta é impedir a disseminação de notícias falsas. Existe o temor de que membros do grupo possam agir para conter críticas às ações de políticos de alguma maneira ligados a eles, em vez de focar as mentiras em si. “Só que, se for por aí, o Facebook, o Google e o Twitter devem se negar a aderir aos pedidos vindos do tal conselho, para não correrem o risco de agredir o ambiente democrático que formaram com suas comunidades”, avalia o advogado Renato Opice Blum, coordenador do curso de direito digital do Insper (SP). “Agora, se o governo achar uma forma de detectar as notícias falsas, as empresas, hoje maduras, deverão colaborar”, completa o especialista. Noutras palavras, redes sociais, hoje, são um assunto de gente adulta.


AS TRÊS FASES DO FACEBOOK

As frases de Mark Zuckerberg, fundador e CEO do site, que mostram a transformação da companhia ao longo da última década


Em 2007, na “infância”

“Somos uma empresa de tecnologia, não de mídia.”

Ao relevar o fato de que usava dados de usuários como base para a venda de publicidade


Em 2009, na “adolescência”

“Privacidade não é mais uma norma social. É algo que está evoluindo ao longo do tempo.”

Ao tentar diminuir a preocupação das pessoas acerca do sigilo das informações que compartilhavam on-line


Em 2017, na idade “adulta”

“Pela forma como o meu trabalho é usado para dividir as pessoas em vez de uni-las, peço perdão.”

Ao assumir a utilização do Facebook na disseminação de discursos radicais e admitir que anúncios foram comprados por empresas ligadas ao governo russo para influir nas eleições presidenciais americanas de 2016. Zuckerberg divulgou medidas de mitigação e prevenção dos dois problemas

 

Publicado em VEJA de 27 de dezembro de 2017, edição nº 2562

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