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Os extremos que espantam

Pesquisas apontam Lula e Bolsonaro na liderança, mas intensifica-se a batalha para achar um nome mais ao centro do leque ideológico, como Huck e Meirelles

Por Ana Clara Costa, Robson Bonin 3 nov 2017, 06h00

Faltando um ano para a eleição presidencial, dois nomes de extremos opostos ocupam a liderança nas pesquisas: o ex-presidente Lula, que de repente deu uma guinada à esquerda e aprofundou ainda mais seu discurso divisionista de “nós” e “eles”, e o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ), ex-­militar de ideias ultraconservadoras e discurso calibrado para o insulto. No mais recente levantamento do Ibope, Lula tem 35% dos votos, contra 13% de Bolsonaro. Entre um extremo e outro, há 52% do eleitorado, que não sabe em quem votar, diz que votará em branco ou se divide entre vários outros nomes. Esses eleitores, que se assustam com as opções mais radicais, são o motor da busca mais frenética da política atual: a tentativa de encontrar um nome situado mais ao centro do espectro ideológico, como ocorreu na França com Emmanuel Macron, cuja campanha, em apenas um ano, saiu do nada para o triunfo (veja entrevista com seu estrategista, Guillaume Liegey).

EXTREMISMO DE RAIZ –  Bolsonaro é a alternativa do eleitorado que odeia quase tudo, principalmente a política Rubio Mara/Futura Press/Folhapress
//VEJA

Nos últimos dias, dois nomes que rondam as especulações para ocupar o espaço entre os extremos apareceram até unidos numa chapa só. O apresentador Luciano Huck, que trabalha na Rede Globo, surgiu como candidato a presidente, tendo o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, como candidato a vice-presidente. “Vice é até interessante”, brincou Meirelles, cuja intenção real é ocupar a cabeça de chapa, como adiantou em entrevista a VEJA. “Sou presidenciável”, confirmou. “Política social é importante como complementação e distribuição de renda, mas não vai resolver o problema social do Brasil. Estou preparado para enfrentar os discursos populistas. Esse será o desafio do candidato de centro.” Na entrevista, cuja íntegra pode ser acessada no site de VEJA, o ministro afirmou que, caso decida mesmo concorrer, não deixará a disputa mesmo que Lula, seu antigo chefe, consiga manter sua candidatura apesar das denúncias na Lava-Jato. Meirelles está certo de que o radicalismo de agora será superado, quando chegar a hora da votação, por um nome de conciliação, de acomodação de interesses diversos.

Henrique Meirelles
LABORATÓRIO - A candidatura do ministro da Fazenda está diretamente atrelada ao sucesso da política econômica Cristiano Mariz/VEJA

Sou presidenciável. Estou preparado para enfrentar os discursos populistas. Esse será o desafio do candidato de centro.

Henrique Meirelles

Filiado ao PSD, Meirelles trabalha para ser o candidato escolhido pelo governo para representá-lo nas urnas em 2018. A ideia é ter os benefícios da máquina pública e o tempo de TV de partidões como PMDB, mas apresentar-se como um quadro técnico, diferente da política tradicional. Para convencer no figurino, Meirelles se dirá fiador do crescimento registrado no mandato de Lula e responsável direto pela recuperação da economia sob Temer. Ou seja: um agente apartidário, a serviço do país. Se vai dar certo, são outros quinhentos.

Luciano Huck, que aparece nas pesquisas com 5% das intenções de voto, empatado com o governador Geraldo Alckmin, nunca se declarou candidato, mas sempre se coloca no jogo político e tem conversado com vários partidos — o Partido Novo, a Rede, o DEM e o PPS, sem tropeçar em barreiras ideológicas. Escreveu Huck, em artigo recente publicado no jornal Folha de S.Paulo: “Esquerda ou direita, isso deveria importar menos — precisamos das duas pernas”. Embalado pelo bom-mocismo e pela projeção que a televisão lhe dá, Huck tem uma equipe de conselheiros estrelada, na qual figuram nomes como Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central, e Ilona Szabó, especialista em segurança pública e fundadora do Agora!, movimento criado com o objetivo de perseguir a “renovação política”. Huck já se reuniu pelo menos quatro vezes com integrantes do Agora!, ocasiões em que, segundo os presentes, “mais ouviu” do que falou e demonstrou curiosidade sobre processos mais ágeis e transparentes de financiamento e gestão pública. Ele também se aliou ao grupo de empresários que é liderado pelo paulistano Eduardo Mufarej e que patrocina o RenovaBR, uma espécie de incubadora para jovens que queiram entrar na política e que oferece, além de bolsas de 5 000 a 12 000 reais, capacitação sobre gestão pública e funcionamento dos três poderes.

Luciano Huck
DE FORA –  O apresentador Luciano Huck: movimentos discretos e empate com Geraldo Alckmin nas pesquisas Eduardo Anizelli/Folhapress

Esquerda ou direita, isso deveria importar menos — precisamos das duas pernas. Temos que ser curadores das boas ideias, de gente competente que queira se dedicar de fato à gestão pública, a servir.

Luciano Huck

Os conselheiros de Huck dizem que ele só seria candidato num cenário radical, em que o Brasil estivesse condenado a algum extremismo — ou seja, exatamente o quadro que as pesquisas desenham neste momento. A questão é que poucos analistas acreditam que a disputa entre os extremos que espantam vá se manter por muito tempo. Lula continua popular entre a parcela mais carente da população, com renda mensal de até um salário mínimo e baixa escolaridade. Bolsonaro é um nome forte entre a parcela do eleitorado que, exausta com os níveis dramáticos de violência e criminalidade, imagina que algo vai melhorar com a implementação da doutrina do “bandido bom é bandido morto”. Nem a pobreza nem a insegurança pública serão resolvidas de imediato, mas o protagonismo eleitoral de Lula e Bolsonaro tende a se diluir diante da alta rejeição a ambos.

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A batalha pelo “Macron brasileiro” ganhou fôlego na exata medida em que perdeu ritmo a candidatura de João Doria, prefeito de São Paulo. No meio político, tornou-se consenso que o prefeito queimou a largada e se desgastou dentro do PSDB, ao mesmo tempo em que se desfazia o equívoco segundo o qual o eleitorado quer um candidato jovem ou não político (veja mais). Quem se beneficiou do esvaziamento de Doria, até agora, foi Geraldo Alckmin — que pode cometer muitos erros, mas cuja experiência política o imunizou contra o equívoco da precipitação cometido por seu pupilo. “O caminho se faz ao andar”, disse o governador a VEJA. “Nunca busquei o atalho do radicalismo. Não creio no discurso populista, com ódio e autoritarismo.”


DE DENTRO - Alckmin, com o prefeito João Doria: o governador se fortaleceu com o esvaziamento do pupilo CHARLES SHOLL/RAW IMAGE/Estadão Conteúdo

O caminho se faz ao andar. Nunca busquei o atalho do radicalismo. Não creio no discurso populista, com ódio e autoritarismo.

Geraldo Alckmin

Os números são animadores para quem pretende se apresentar como alternativa à radicalização. Segundo o Ibope, 53% dos eleitores com ensino superior e 54% dos jovens com idade entre 16 e 24 anos ainda não têm candidato. Juntos, esses dois segmentos representam 22,8% do eleitorado. Na Região Sudeste, que reúne três dos quatro maiores colégios eleitorais do país, 65% não têm candidato ou cogitam votar em branco ou nulo. Uma sondagem da consultoria Ideia Big Data, fundada pelo pesquisador Maurício Moura, da Universidade George Washington, nos Estados Unidos, ouviu 1 600 pessoas e concluiu que 53% rejeitam os maiores partidos, mas não descartam uma nova opção. O jogo, portanto, está em aberto.

Mas é preciso saber jogar. Em boa medida, a eleição presidencial de 2018 guarda semelhanças com a corrida de 1989, a primeira depois da ditadura militar. Naquela época, o eleitorado estava assustado com o candidato do PT, cujo discurso ainda não havia sido amansado para conquistar a confiança do mercado, e a busca por um nome palatável também chegou às telas de televisão. Silvio Santos, então com 58 anos, foi cogitado, como agora se cogita Luciano Huck, até ter sua candidatura presidencial impugnada. A busca por um nome, como se sabe, acabou no desastre chamado Fernando Collor. Em grande parte, esse desfecho deveu-se à incapacidade da elite econômica e financeira do país para expor-se politicamente. Em vez disso, ela procura prepostos. Na França, Macron é, ele próprio, um nome da elite econômica e financeira de seu país que não se comporta como avestruz quando o assunto é política.

Com reportagem de Sofia Fernandes

Publicado em VEJA de 8 de novembro de 2017, edição nº 2555

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