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Os efeitos da pobreza

Estudos em favela brasileira mostram que a vida na penúria provoca impactos reais no desenvolvimento cognitivo e na formatação cerebral de crianças

Uma série de trabalhos recentes demonstra ser possível medir os danos cognitivos causados pela pobreza. VEJA teve acesso aos dados preliminares de um estudo promovido pela Universidade de São Paulo, pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal e pela Universidade Harvard, nos EUA, cujo objetivo é entender de que modo as condições paupérrimas das famílias de uma favela em São Paulo, a Paraisópolis, e de um bairro vizinho, na Zona Oeste da cidade, prejudicam o desenvolvimento das crianças na primeira infância, entre zero e 6 anos. Desde 2015, um grupo de oitenta jovens mães, com idade a partir de 14 anos, vem recebendo a visita de enfermeiras que transmitem indicações de como lidar com os bebês e sugestões comezinhas, desde o simples toque na barriga durante a gestação até o cuidado para evitar brigas recorrentes diante dos filhos (duas das personagens acompanhadas aparecem nas fotos ao lado). Os primeiros resultados são contundentes. As crianças envolvidas na pesquisa adquiriram uma capacidade cognitiva 15% melhor em relação à das que sofrem com o abandono. Elas também têm uma linguagem com vocabulário 20% mais rico. “Esse tipo de visitação tem o potencial de mudar a trajetória de uma vida sem perspectivas”, diz Guilherme Polanczyk, chefe do serviço de internação do Instituto de Psiquiatria da USP, um dos coordenadores do levantamento.

As primeiras conclusões fazem ­ecoar as investigações do americano James Heckman, prêmio Nobel de Economia, especializado na primeira infância e que, a partir de modelos matemáticos, mediu na ponta do lápis o custo de uma socie­dade miserável, incapaz de zelar pelas crianças, especialmente na educação. Segundo Heckman, cada dólar gasto com os muito pequenos trará retorno anual de 14 centavos durante toda a vida. Diz o economista: “Países que não investem na primeira infância apresentam índices de criminalidade mais elevados, maiores taxas de gravidez na adolescência e de evasão no ensino médio, além de níveis menores de produtividade no mercado de trabalho”. É grave e triste.

Eliane Ferreira da Silva, 21 anos, mãe de Ana Mirella: “Aprendi que ler, e ler muito, para a criança é importante. Minha filha é muito esperta, se expressa bem. Não imaginava que um neném pudesse ser tão inteligente”

Eliane Ferreira da Silva, 21 anos, mãe de Ana Mirella: “Aprendi que ler, e ler muito, para a criança é importante. Minha filha é muito esperta, se expressa bem. Não imaginava que um neném pudesse ser tão inteligente” (Jonne Roriz/VEJA)

Aferições como a que está sendo realizada em franjas muito pobres de São Paulo, a partir de ações de extrema simplicidade, têm se repetido nos últimos anos. Com base nelas, e nos diagnósticos, lança-se um olhar menos paternalista e mais prático para a miséria. Transforma-se em estatística e dados científicos o que sempre foi apenas uma impressão doída.
As revelações compiladas são assustadoras, e podem ser resumidas em três tópicos fundamentais:

– Vocabulário: aos 4 anos, uma crian­ça educada num ambiente abastado terá ouvido pelo menos 45 milhões de palavras. Uma criança pobre terá tido contato com cerca de 13 milhões. Aos 8 anos, o vocabulário de quem recebeu estímulos cognitivos chega a 12 000 palavras — contra apenas 4 000 no caso de um aluno sem a mesma base educacional.

– Inteligência: uma pessoa de família de baixa renda tem 13 pontos a menos no quociente de inteligência (QI) em relação à média populacional, de acordo com estudo da Universidade Princeton, nos EUA. Pesquisa publicada na revista Nature Neuroscience mostrou que o cérebro de crianças pobres apresenta o córtex, a região associada à memória e ao raciocínio, involuído.

– Doenças: em ambientes pobres, as crianças são mais expostas a situações de stress e violência, fatores que ­au­mentam o risco de desenvolvimento de problemas mentais, segundo pesquisa da Universidade de Denver, nos EUA. A má alimentação resulta em obesidade. A Esmée Fairbairn, fundação inglesa, mostrou que no Reino Unido 22% das crianças pobres são obesas. Entre as ricas, a taxa cai para apenas 7%.

Há algo a ser feito, ainda que não se consiga sair do círculo vicioso da pobreza, como acontece no Brasil? Sim. Investir cedo e rápido na educação. Será exponencialmente mais caro para uma sociedade educar suas crianças depois que elas já tiverem passado pelos primeiros anos de vida na penúria.

Publicado em VEJA de 6 de dezembro de 2017, edição nº 2559