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Olhar forasteiro

Na mostra que inaugura um novo templo da fotografia em São Paulo, a câmera afiada de Robert Frank — que retratou sem filtros os Estados Unidos dos anos 50

Na agitação de uma rua de Nova Orleans, Robert Frank passa despercebido enquanto fotografa pedestres anônimos. Ao ouvir o ronco de um motor às suas costas, ele se vira e faz, de supetão, o instantâneo de um ônibus que trafega pela via. Assim foi produzida uma das grandes fotografias do século XX: o flagrante dos passageiros nas janelas do lotação é não só o prodígio da conversão de uma cena fugaz em composição extraordinária, mas um comentário ensurdecedor sobre a segregação racial nos Estados Unidos dos anos 50. Nos bancos da frente estão um homem, uma senhora com ar superior e duas crianças brancas; atrás deles, como rezava a cartilha da discriminação, viajam um homem e uma mulher negros.

Com Os Americanos, livro lançado em 1958 que traz o célebre ônibus entre suas 83 imagens, Robert Frank mudaria a cara de seu ofício. O gênero que o artista suíço fundou, a chamada fotografia de rua, captava a vida sem polir suas arestas e incômodos, valendo-se do improviso e do cultivo de certa imperfeição técnica. Sua obra é uma escolha adequadíssima para marcar a inauguração, no próximo dia 22, da nova sede paulistana do Instituto Moreira Salles (IMS). O prédio envidraçado na Avenida Paulista foi projetado para abraçar a vida cultural da metrópole que borbulha no entorno. Os quatro andares expositivos, entremeados com uma biblioteca especializada no assunto e outras atrações, trazem uma renovada perspectiva à apreciação da fotografia pelos brasileiros.

LENTE CRÍTICA – Funeral em uma comunidade negra: captando o lado B da América

LENTE CRÍTICA – Funeral em uma comunidade negra: captando o lado B da América (Robert Frank/)

A própria mostra de Frank, aliás, foi concebida dentro de um espírito de democratização da fotografia. “É impossível fazer uma exposição convencional da obra dele, já que as imagens são frágeis e têm seguro altíssimo. Então criei uma mostra barata, que pode ser levada às novas gerações em qualquer lugar”, diz o alemão Gerhard Steidl, que representa a obra de Frank e é o mais prestigiado editor de livros de fotos do mundo. A vasta produção do artista — ainda ativo, aos 92 anos — ganha ampliações feitas sob sua batuta e impressas em painéis de papel-jornal. O público, no entanto, poderá conferir um apanhado bem mais amplo de seu trabalho. Estão programadas exibições dos filmes experimentais de Frank — entre eles, um cultuado mas pouco visto documentário sobre os Rolling Stones. O maior atrativo, porém, é o conjunto completo de Os Americanos, vindo de um museu francês (o livro também está sendo lançado aqui pelo IMS).

FUGAZ E ETERNO – Flagrante do ônibus em Nova Orleans: num clique improvisado, o artista sintetizou a tensão racial

FUGAZ E ETERNO – Flagrante do ônibus em Nova Orleans: num clique improvisado, o artista sintetizou a tensão racial (Robert Frank/)

À maneira de Alexis de Tocqueville (1805-1859), pensador e viajante francês celebrizado por seus escritos sobre a democracia nos Estados Unidos, Frank captou a realidade americana como um antropólogo vindo de fora. “Ele buscou, deliberadamente, expor as contradições do país”, diz Sergio Burgi, do IMS. O desapego técnico e a agudeza crítica causaram rejeição nos editores americanos: seu livro só saiu por lá um ano após ser publicado na Europa. Foi atacado até em serviço. Certa vez, um garotinho do Mississippi quis saber o que o forasteiro fazia com a câmera. “Só umas fotos para mim”, disse Frank. A criança retrucou: “Esse cara deve ser comunista. Por que não vai ver o que os negros estão fazendo do outro lado da cidade?”. Se Frank virou um clássico, é porque ele não precisou do conselho de ninguém para ir ao encontro do lado B da América.

Publicado em VEJA de 9 de agosto de 2017, edição nº 2542