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Olha ele aí de novo

No caminho inverso dos jornais em crise que migram para a internet, o 'Jornal do Brasil', um símbolo do Rio que havia virado site, volta às bancas

Não falta notícia ruim no horizonte dos jornais impressos, que em todo o mundo perdem publicidade e leitores para a internet em ritmo acelerado. Para muitos, a única saída é refugiar-se on-line. Pois nesse sombrio cenário, eis que no Rio de Janeiro uma publicação que há oito anos migrou das bancas para a rede faz o caminho inverso: o Jornal do Brasil, um ícone carioca que, no seu auge, chegou ao posto de maior jornal do país, com reportagens de grande repercussão e colunistas da dimensão de Carlos Drummond de Andrade e Otto Lara Resende. A decisão de ressuscitar o JB, como é chamado, foi tomada pelo empresário Omar Peres, também ele conhecido pelo apelido, Catito, que arrendou a marca por quarenta anos em dezembro de 2017. Para reforçar a ligação com o passado, o jornal relançado no domingo 25 tem os mesmos logotipo e tamanho do original.

Catito negociou o uso do nome JB com o baiano Nelson Tanure, investidor em empresas-problema que em 2001 assumiu a marca da família Nascimento Brito por sessenta anos, renováveis por mais trinta. Àquela altura, o jornal já ia de mal a pior, assolado por crises financeiras, cortes de equipe e baixa circulação. O JB impresso capengou até 2010, quando se tornou exclusivamente digital — e sem nenhuma expressão. Catito admite que a volta do JB às bancas é temporária — “calculo cinco anos” — e visa justamente a recuperar o brilho e a credibilidade de antigamente para aplicá-los à versão digital. “O JB Online tinha uma audiência ruim, com 100 000 visitas diárias. No domingo em que relançamos o impresso, os acessos subiram para 300 000”, festeja.

Rei da nostalgia – Catito, o novo dono: apostas na memória afetiva

Rei da nostalgia – Catito, o novo dono: apostas na memória afetiva (Leo Martins/Agência o Globo)

O novo proprietário do jornal é empreendedor eclético, com passagens pelos setores naval, imobiliário e de comunicações (até de time de futebol foi dono), trajetória em que acumulou sucessos e fracassos. Também tem ambições políticas: já se candidatou ao Congresso três vezes e sonhou (diz que descartou) com a vaga de governador do Rio na eleição deste ano. Nos últimos tempos, tornou-se especialista em revitalizar, sempre com grande fanfarra, negócios combalidos por problemas de custo e de gestão mas que carregam uma memória afetiva. No Rio, sede do seu reino nostálgico, investiu no Bar Lagoa, na tradicional pizzaria La Fiorentina, em uma padaria chique e, mais recentemente, reabriu a casa noturna Hip­popotamus, em sociedade com o proprietário original, Ricardo Amaral. Em Brasília, reabilitou o restaurante Piantella, por décadas reduto do poder na capital federal. Agora, instalou-se no JB, com armas e bagagens, e sob rumores de que usaria o jornal para impulsionar uma candidatura qualquer.

Fundado dois anos depois da proclamação da República, o Jornal do Brazil, como foi batizado, iniciou seu período áureo em 1959, quando promoveu uma radical mudança gráfica. Nas três décadas seguintes, ganhou peso e influência nacionais — é cantado, inclusive, em versos na “geleia geral brasileira que o Jornal do Brasil anuncia”, de Gilberto Gil e Torquato Neto. Na cidade que, aos domingos, o levava para ler na praia, insubstituível como o mate e o biscoito Globo, a decadência do jornal foi uma tristeza só. Sua volta, agora, com uma equipe de jornalistas veteranos, muitos com o nome ligado ao velho JB — o cartunista Ziraldo, 85 anos, é diretor de arte —, empolgou os nostálgicos.

No domingo do relançamento, 40 000 exemplares — o dobro da tiragem diária projetada — chegaram às bancas e se esgotaram antes do meio-dia (O Globo vende 290 000). A edição inaugural, de 52 páginas, foi uma auto-­homenagem que reuniu memórias e uma penca de artigos assinados por autoridades e famosos, entre eles Michel Temer, Lula e Fernanda Montenegro. Segundo Catito, o custo da operação é de 1 milhão de reais por mês e o jornal circulará no Rio e em Brasília. Ele cita uma pesquisa que apontou 100 000 pessoas nas duas cidades interessadas em ler o JB. “Se atingir 30% desse público, já será ótimo”, diz. A julgar pela primeira edição, será preciso muito trabalho, ainda, para chegar aos pés do que foi o JB do passado.


O buraco negro da internet

Em pleno século XXI, quando milhões de arquivos podem ser guardados em dispositivos que cabem na palma da mão ou na nuvem, existe uma fatia do material publicado na internet sujeita a desaparecer: as páginas dos sites que saem do ar sem que tenham sido devidamente armazenadas em algum arquivo autônomo. Um artigo recente publicado na Columbia Journalism Review alerta para as falhas dos arquivos digitais existentes e a falta de regulamentação da guarda e livre consulta do conteúdo da infinidade de sites e blogs que nascem todos os dias — uma fonte inestimável de referência histórica. A mais completa concentração de publicações na internet atualmente é a Wayback Machine, criação da ONG Internet Archive.

Trata-se uma biblioteca on-line que captura conteúdo de sites do mundo inteiro — acumulou 310 bilhões de páginas ao longo de 22 anos, um arquivo de 30 petabytes (comparando: 10 bilhões de fotos de usuários do Facebook equivalem a 1,5 petabyte). Mesmo a Wayback Machine, porém, não registra todas as publicações de todos os sites — as capturas são esporádicas e não acompanham a rapidez das atualizações. No Brasil, um exemplo de páginas desaparecidas foi o fechamento do site de notícias No Mínimo, que durou cinco anos e saiu do ar em 2007, depois de perder patrocínio. A íntegra do conteúdo publicado tornou-se inacessível (embora parte esteja, sim, na Wayback Machine). No domínio em que funcionava, são publicadas agora notícias sobre tecnologia.

Publicado em VEJA de 7 de março de 2018, edição nº 2572