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O tucano dos “abadás”

Com a descoberta de que guardava R$ 113 milhões na Suíça, Paulo Preto, operador de políticos do PSDB, entra para a galeria dos milionários da Lava-Jato

Paulo Vieira de Souza, o “Paulo Preto”, é figurinha repetida nas delações premiadas. Cinco delatores da Odebrecht e um da Andrade Gutierrez, além do doleiro Adir Assad, já afirmaram a procuradores ter repassado dinheiro ilegalmente a ele para abastecer campanhas dos tucanos José Serra e Aloysio Nunes e de Gilberto Kassab, hoje no PSD. Os repasses teriam sido feitos por meio de contratos da estatal paulista Dersa, dirigida por Paulo Preto entre 2005 e 2010, com empreiteiras do petrolão. Ele, dizem delatores, chamava propina de “abadá” e tinha o hábito de esconder o dinheiro em uma parede falsa de um apartamento em São Paulo. Investigado em três inquéritos policiais, só foi preso uma vez — e por motivo quase prosaico. Em 2010, foi com sua BMW ano 2009 a uma loja Gucci no Shopping Iguatemi, em São Paulo, para verificar o preço de um bracelete. A joia era roubada e ele acabou detido por receptação — “com 11 242 reais em dinheiro vivo, distribuídos entre os bolsos do casaco bege (8 500 reais) e da calça (2 742 reais)”, conforme consta do boletim de ocorrência. Recentemente, porém, o Ministério Público Federal fez descobertas bem mais vultosas e comprometedoras para o ex-diretor da Dersa. Achou quatro contas no banco suíço Bordier & Cie em nome de uma offshore da qual ele é beneficiário, a Groupe Nantes. Em junho de 2016, a dinheirama chegava a 35 milhões de francos suíços, ou 113 milhões de reais. Com isso, Paulo Preto entra para a galeria dos milionários da Lava-Jato.

Duas curiosidades chamaram a atenção dos investigadores: a primeira é que o valor é muito próximo dos 100 milhões de reais que o doleiro Adir Assad, responsável por lavar o dinheiro das empreiteiras, disse, em seu pré-­acordo de delação, ter repassado a Paulo Preto. A segunda foi a data de abertura das contas: 2007, o ano em que Paulo Preto foi nomeado para a diretoria de engenharia da Dersa por Serra, que acabara de assumir o governo do estado. Ao tomar conhecimento da quantia encontrada nas contas de seu apadrinhado, o senador tucano reagiu com aparente surpresa. “Como ele conseguiu juntar todo esse dinheiro?”, admirou-se, em conversa com companheiros de legenda. Delatores apontam Paulo Preto como o principal operador financeiro da campanha presidencial do tucano, em 2010, e das campanhas que elegeram o hoje chanceler Aloysio Nunes Ferreira. Paulo Preto seria o elo operacional que viabilizava o pagamento, por empreiteiras, de propina sobre contratos oferecidos pela Dersa, como nas obras do Rodoanel e da Marginal Tietê.

Um tucano relembra que Paulo Preto chegou forte ao governo de São Paulo, como diretor de relações institucionais da Dersa, ainda na gestão do governador Geraldo Alckmin, em 2005. A indicação teria sido de Aloysio Nunes, seu amigo. Anos antes, Nunes o convidara para despachar do 3º andar do Palácio do Planalto, o mesmo em que ficava o então presidente Fernando Henrique Cardoso, atribuindo-lhe a função de assessor especial da Presidência. Aloysio Nunes confirmou que Paulo Preto é seu amigo, mas negou que tenha recebido repasses ilegais por seu intermédio e que o tenha indicado para a Dersa. “Ele já estava lá quando assumi a Secretaria da Casa Civil no governo de São Paulo”, disse o chanceler. Já a defesa de Paulo Preto afirma que ele “não tem nenhuma relação com as contas e a quantia” encontradas na Suíça. O senador José Serra disse, por meio de sua assessoria, que não tem nenhuma relação com os fatos apurados e que, como governador, não indicava diretores de estatais.

Tucanos próximos a Alckmin, presidenciável do PSDB, temem o potencial explosivo dos desdobramentos da investigação. No entanto, destacam que as apurações não se referem ao período do governo Alckmin, de quem Paulo Preto nunca foi próximo. “É óbvio que isso vai respingar na campanha. Mas também está claro que isso é do grupo do Serra”, disse um interlocutor de Alckmin, que pediu anonimato para não indispor o governador com o senador. Em sua defesa, Alckmin pretende usar como “trunfo” uma auditoria que fez na Dersa em 2016. Apontou desvios de 7,5 milhões de reais na estatal, entre 2009 e 2010 — o valor não chega a 7% da bolada encontrada nas contas suíças.

A existência das contas no exterior veio a público por um ato da própria defesa de Paulo Preto, que tenta a todo custo tirar o processo da primeira instância e levá-lo ao Supremo Tribunal Federal. O advogado Daniel Bialski pediu ao STF “nulidade” do acordo de cooperação internacional. O argumento é que a investigação conduzida pelo Ministério Público em São Paulo envolve pessoas com foro privilegiado e, por isso, deve ficar a cargo da Corte em Brasília. Caberá ao ministro Gilmar Mendes, relator dos processos de Serra e Aloysio Nunes no Supremo, decidir se invalida ou não as provas.

Publicado em VEJA de 7 de março de 2018, edição nº 2572