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O SUS alternativo

Os novos tratamentos incluídos no sistema público de saúde, de comprovação científica escassa, levantam a questão: o programa deve oferecer essas práticas?

Por Natalia Cuminale 16 mar 2018, 06h00

A mais recente novidade do Ministério da Saúde é a inclusão de dez terapias alternativas oferecidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Com os tratamentos, o maior programa de cuidados públicos do mundo é agora também recordista na oferta de procedimentos desse tipo, um tanto controversos. A lista engloba as populares aromaterapia, cromoterapia, hipnoterapia e florais. Há, por outro lado, práticas nem tão afamadas, como a constelação familiar (ferramenta que se vale da árvore genealógica para descobrir a causa de algum ponto frágil na vida e, assim, abrir caminhos para solucionar problemas de relacionamento) e a geoterapia (o uso da argila com água para tratar ferimentos e lesões, além de facilitar a cicatrização).

No Brasil, cerca de 80% dos pacientes com câncer usam esses métodos de modo complementar, como apoio à medicina tradicional. É direito de qualquer cidadão recorrer àquilo em que acredita. Mas, afinal, o SUS deve oferecer esses tratamentos? Diz Fabio Romano, chefe do setor de medicina integrativa do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, um dos centros de saúde mais respeitados do país: “A intenção é boa, essas terapias são ferramentas que estimulam o paciente a se cuidar mais, melhorando a qualidade de vida”. O Conselho Federal de Medicina (CFM), contudo, reagiu com irritação. Um dia depois ao do anúncio do governo, a entidade divulgou nota com um alerta: a prescrição e o uso de procedimentos e terapêuticas alternativos, sem reconhecimento científico, são proibidos aos profissionais de saúde brasileiros, conforme prevê o Código de Ética Médica. Ou seja, o médico que desrespeitar a orientação estará sujeito a investigação. “É uma alocação de recursos, já escassos, para áreas que não têm nenhuma comprovação científica”, disse a VEJA Carlos Vital, presidente do CFM.

O Ministério da Saúde afirma que financia e apoia pesquisas para verificar as evidências científicas dessas práticas e a Organização Mundial da Saúde estimula os países a incorporar essa linha de procedimentos. No mundo ocidental, a oferta é variável. A Inglaterra reconhece a osteopatia (a manipulação de articulações e partes moles) e a quiropraxia (avaliação e movimentação de regiões como a coluna), por exemplo. A Austrália decidiu recentemente retirar o subsídio a dezessete práticas não convencionais depois de um estudo no país ter questionado seus reais benefícios. Os Estados Unidos autorizam algumas dessas modalidades heterodoxas.

A urgente necessidade de investir no atendimento básico é indiscutível. Uma atenção primária valorizada e bem estruturada é capaz de reduzir 70% dos casos de complicações de saúde. O problema é que, até hoje, não se comprovou a relevância das terapias alternativas na melhora das estatísticas hospitalares. Mais de 150 milhões de brasileiros dependem do SUS. O sistema, que tem enormes qualidades, enfrenta também grandes dificuldades. Seria conveniente, portanto, que todo centavo fosse contabilizado na ponta do lápis.

Publicado em VEJA de 21 de março de 2018, edição nº 2574

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