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O Real Madrid do sertão

Provavelmente sem saber, o clube da Europa tem uma 'filial' no sertão da Bahia. E, como na capital espanhola, o time é motivo de orgulho da população local

Por Alexandre Senechal - 27 abr 2018, 06h00

Durante a Copa de 1998, Chico Buarque foi convidado pelo jornal O Estado de S. Paulo a escrever uma série de crônicas. Numa delas, cunhou uma frase lapidar, ao definir o que tanta gente andava fazendo por aí, pelo Brasil: “Pelada é uma espécie de futebol que se joga apesar do chão”. Em vinte anos, pouca coisa mudou nos campos de qualquer tipo, embora o país tenha virado de cabeça para baixo. A máxima descreve à perfeição os jogos no “Teixeirão”, o apelido do retângulo de terra do povoado baiano de Bonfim do Amianto, a 90 quilômetros de Vitória da Conquista.

A geografia daquele pedaço é peculiar. O time que ataca o gol voltado para o vilarejo atua em desvantagem, pois o terreno inclinado faz com que seus jogadores tenham de correr morro acima, esbaforidos. Já quem chuta a bola no sentido contrário, como faz o peladeiro da foto acima, deve tomar cuidado. Se a bola rolar demais e encostar em um quiabento, planta espinhosa típica da caatinga, é fim de jogo, com o couro furado. Nada que diminua o ímpeto da turma, sempre homens, que todo sábado, todo domingo bate ponto entre as traves, palco de uma das paradas da Expedição Vozes do Futebol, organizada por VEJA com o apoio da Mercedes-Benz.

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TERRA BATIDA – Tratorzinho, o “presidente”, cuida de remendar as bolas furadas Jonne Roriz/VEJA

Bonfim do Amianto está na zona rural do município baiano de Bom Jesus da Serra. O povoado surgiu nos anos 1930, para abrigar as famílias de quem trabalhava na mina de São Félix do Amianto, cujo fim, como o próprio nome indica, era a exploração da fibra mineral usada em telhas e caixas-d’água. Com o esgotamento das reservas de amianto e o encerramento das atividades da mina, em 1967, a principal fonte de renda de seus habitantes desapareceu. Desde então a comunidade de pouco mais de 250 habitantes sobrevive da agricultura de subsistência e da renda proveniente de algumas olarias que ocupam o terreno de fazendas da região. Diversão? Há uma singela praça, dois botequins e o campinho.

Arte/VEJA

A pouca alegria diante de tanta escassez é o Real Madrid, o time amador da região — do clube espanhol, o homônimo baiano empresta também o escudo estampado no uniforme cor de laranja. “Sempre jogamos ou assistimos a jogos nos fins de semana”, diz o oleiro Reginaldo da Silva, de 38 anos, que ora joga como zagueiro, ora como lateral esquerdo. “Quando não tem aqui, tem em outros lugares e a gente vai.” Nascido em São Paulo, ele chegou a Bonfim com apenas 3 anos, mas regressou à capital paulista em busca de melhores oportunidades de trabalho. Há duas décadas, Reginaldo decidiu voltar à Bahia, onde vive com a mãe e a filha.

Nivaldo Ventura de Almeida, conhecido como Tratorzinho, fez trajetória semelhante. Depois de duas longas temporadas em São Paulo, onde viveu como pedreiro e carpinteiro, escolheu a terra natal para passar a aposentadoria. “O futebol para mim é uma felicidade. Estar no meio da galera batendo uma bolinha é tudo na vida”, declara. Aos 62 anos, Tratorzinho está sempre com os mais jovens acompanhando as peladas do Real Madrid, seja jogando, seja assistindo. De tão presente, foi alçado ao posto de “presidente” do time. Nivaldo é peça fundamental do futebol de Bonfim do Amianto. Afinal, é ele o responsável por remendar as bolas furadas vítimas dos espinhos de quiabento. “Já cheguei a costurar até dez bolas em uma semana para os meninos que jogam na região”, diz. Mas os moradores mais espertos já encontraram uma solução mais prática: uma nota de 5 reais, dada aos gandulas que se voluntariam para embrenhar-se no mato antes que o pior aconteça, apesar do chão, para que a pelada não pare.

Publicado em VEJA de 2 de maio de 2018, edição nº 2580

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