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O pleito do fim do mundo

Com dezenove pré-candidatos e o líder das pesquisas na cadeia, a disputa presidencial de 2018 começa a tomar ares de uma tempestade perfeita

Por Da Redação 15 jun 2018, 06h00

Era para ser a eleição da renovação e do sepultamento daquilo que se convencionou chamar de “velha política”. Até aqui, porém, a campanha de 2018 tem sido fonte de notícias que trazem mais susto que perspectiva. Os extremos têm notável musculatura. De um lado está um capitão da reserva que, em vez de portar-se como candidato a presidente, parece fazer campanha para delegado de polícia — e agora lida com fantasmas de seu passado (veja a reportagem). De outro, um ex-presidente encarcerado, cujo nome nem deveria aparecer nas pesquisas, já que sua candidatura inexiste, mas contribui para dar um ar de realismo fantástico ao pleito: o preferido do eleitorado dorme e acorda vendo o sol quadrado.

É um cenário raro de ver em qualquer democracia do mundo. Para completar o desalento, o centro ideológico, que normalmente incorpora o equilíbrio político, murcha a olhos vistos — e, assim, dissemina-se a impressão de que o país pode estar começando a montar uma tempestade perfeita. Nas simulações para o segundo turno, o cenário é igualmente turvo. Até o momento, a presença de Jair Bolsonaro nele parece garantida, mas é impossível prever quem será seu adversário. A ex-senadora Marina Silva, da Rede, aparece na última pesquisa do Datafolha como a única capaz de vencer o ex-capitão, mas ela própria lida com enormes obstáculos para fazer uma campanha realmente competitiva (veja a reportagem ).

Faltando quatro meses para o pleito, não há ninguém capaz de incorporar a tal “nova política”. Cortejados para envergar esse figurino, o apresentador Luciano Huck e o ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa desistiram antes da largada. A isso se soma um eleitorado desiludido. De acordo com o Datafolha, sem a presença de Lula nas urnas, 33% dos eleitores dizem que não pretendem votar em ninguém, o que é lamentável mas não chega a ser nenhuma ameaça aos fundamentos democráticos, como sugerem alguns (leia a coluna de Dora Kramer). Esse porcentual é recorde a quatro meses da votação e vem se revelando uma tendência eleição após eleição.

Por enquanto, impera mesmo a apatia — e ela se impõe por uma série de fatores. Há um excesso de candidatos, exatamente dezenove, e o dinheiro, com a nova legislação em vigor, tende a ser mais escasso que nas campanhas anteriores. Além disso, o que se viu até agora é uma tremenda aridez no terreno das ideias. Em suma, é impossível fazer qualquer prognóstico com um grau razoável de certeza. Na última pesquisa, o que se tem é o seguinte: Jair Bolsonaro com 19%, Marina Silva com 15%, Ciro Gomes com 10% e Geraldo Alckmin com 7% — depois deles, uma legião de candidatos ainda mais nanicos. O quadro se mantém praticamente inalterado desde abril, o que é uma boa notícia para Bolsonaro.

De acordo com Mauro Paulino, diretor do Datafolha, o principal desafio nesta campanha será tirar o eleitorado de uma situação de “letargia”. Ganhará musculatura o candidato que conseguir colher apoio principalmente entre os 33% que não querem votar em ninguém. É um senhor desafio — para todos. Bolsonaro tem tentado medir as palavras, para amenizar a imagem radicalizada. Marina luta contra o isolamento em que se colocou. Ciro, que já tropeçou na própria língua em outras campanhas, busca conquistar petistas sem associar sua imagem à corrupção. E Alckmin enfrenta os mesmos obstáculos de 2006: não empolga nem o ninho tucano. Parece o fim do mundo.

Publicado em VEJA de 20 de junho de 2018, edição nº 2587

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