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O monstro oculto

‘A Assombração da Casa da Colina’ revela o sutil terror psicológico de Shirley Jackson, uma grande escritora que não ganhou o devido reconhecimento em vida

O panteão do terror literário pode ser dividido, grosso modo, em dois tipos de autores: aqueles que revelam o monstro e aqueles que o deixam nas entrelinhas. Os americanos H.P. Lovecraft e Stephen King geralmente se encaixam na primeira categoria — suas histórias tendem a vencer o leitor a golpes de espanto e repulsa. Entre os cultores do terror oblíquo, um dos exemplos mais rematados é a também americana Shirley Jackson — cuja obra mais célebre, A Assombração da Casa da Colina, de 1959, acaba de chegar às livrarias no Brasil. Estilista de lúgubre elegância, Jackson sabia criar atmosferas de vaga ameaça metafísica: seus demônios são perturbadores exatamente por permanecerem a meia-luz.

O terror psicológico de Jackson é quase sempre protagonizado por personagens femininas que tentam escapar de existências sufocantes — busca que em geral acaba em derrota e aniquilação. Há em todos os seus relatos um toque de sinistra veracidade, e essa impressão se torna ainda mais inquietante quando se conhece sua biografia. A vida da autora foi muito semelhante à de suas assombradas personagens — excetuadas as manifestações de fantasmas e poltergeists.

Shirley Jackson nasceu em São Francisco, em 1916, no seio de uma família abastada mas pouco propensa às artes: sua mãe fazia questão de ridicularizar as aspirações literárias da filha. Tentando fugir à matriarca filistina, a escritora casou-se com um catedrático de literatura e foi viver em Nova York. O matrimônio, porém, revelou-se uma segunda prisão: o marido era infiel, rancoroso e parasitário. Atormentada pela depressão e pela ansiedade, Jackson entregou-se gradualmente ao álcool e às anfetaminas. Nos relatos de terror e fantasia, encontrou um bálsamo sombrio: seus livros fizeram relativo sucesso e, em 1963, A Assombração da Casa da Colina foi adaptado por Hollywood — dando origem ao excelente Desafio do Além, de Robert Wise. Mas os críticos literários desprezavam a autora — na época, o terror e a ficção científica eram considerados gêneros menores nos Estados Unidos (como ainda ocorre, teimosamente, no Brasil). Jackson morreu de parada cardíaca, aos 48 anos. Os pósteros viram-na com mais clareza que os contemporâneos: hoje, é considerada uma das romancistas mais sutis da língua inglesa no século XX — em qualquer gênero.

 (//AP)

Os aficionados de histórias sobrenaturais encontrarão em A Assombração da Casa da Colina uma abundância de elementos familiares. O enredo se passa numa mansão vitoriana, erguida por um milionário excêntrico e sorumbático; as peças têm uma arquitetura desorientadora, dando a sensação de um labirinto suntuoso e mal iluminado. Não existe explicação clara para a péssima reputação do local: “Algumas casas simplesmente nascem más”, diz um dos personagens. Para explorar os potenciais fantasmagóricos da mansão, um antropólogo heterodoxo convida um grupo de diletantes a passar algumas noites lá dentro — entre eles Eleanor, jovem atormentada por uma história familiar mórbida. Até aí, o leitor pode experimentar certa sensação de déjà lu. Mas, uma vez armada a situação clássica, a narrativa ganha novas dimensões: além de criar momentos de medo exemplarmente arquitetados, o romance se transforma em um estudo às vezes vertiginoso da paranoia e do rancor.

A Assombração da Casa da Colina, de Shirley Jackson (tradução de Débora Landsberg; Suma de Letras; 240 páginas; 49,90 reais ou 34,90 reais em versão digital)

A Assombração da Casa da Colina, de Shirley Jackson (tradução de Débora Landsberg; Suma de Letras; 240 páginas; 49,90 reais ou 34,90 reais em versão digital) (Suma de Letras/.)

Eleanor acredita-se perseguida não apenas pelos espíritos da casa, mas também por seus companheiros de aventura — que parecem constantemente tramar algo contra ela, rir às suas costas, divertir-se à sua revelia. Em nenhum momento o relato explica onde acaba a neurose e começa a realidade; tampouco chegamos a saber em que consiste, afinal de contas, a assombração da Casa da Colina. A própria mansão parece uma materialização da angústia humana — uma divindade enigmática que guia suas vítimas no caminho da autodestruição. Em mãos de um escritor menor, essa estratégia poderia cair na caricatura fácil; nas páginas de Shirley Jackson, o resultado é uma inapreensível sensação de pesadelo, perfeitamente exemplificada pelo célebre parágrafo que abre e encerra o livro:

“Nenhum organismo vivo pode existir muito tempo com sanidade sob condições de realidade absoluta; até cotovias e gafanhotos, supõem alguns, sonham. A Casa da Colina, desprovida de sanidade, se erguia solitária contra os montes, aprisionando as trevas em seu interior (…) Lá dentro, paredes continuavam de pé, tijolos se juntavam com perfeição, assoalhos estavam firmes e portas estavam sensatamente fechadas; o silêncio se escorava com equilíbrio na madeira e nas pedras da Casa da Colina, e o que entrasse ali, entrava sozinho”.

Publicado em VEJA de 16 de maio de 2018, edição nº 2582