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O médico é o monstro

Larry Nassar passou anos abusando das atletas da ginástica artística dos Estados Unidos, um delito horrendo que o movimento antiassédio ajudou a expor

Não fossem estes os tempos do #MeToo e da intensa reverberação de denúncias de assédio sexual, é possível que transcorresse sem grande repercussão o julgamento de Larry Nassar, 54 anos, por quase duas décadas um dos luminares da medicina esportiva nos Estados Unidos. Para seu azar, porém, as mulheres se mobilizaram e o caso tomou uma dimensão nunca vista: ao longo de sete dias, 156 atletas e ex-atletas, entre elas as estrelas da campeoníssima equipe de ginástica artística americana, desfiaram detalhes sórdidos dos “tratamentos” a que foram submetidas por Nassar, um predador contumaz que abusou sexualmente de suas pequenas vítimas anos a fio. Condenado a seis décadas de prisão em um primeiro julgamento (acumulava 37 000 imagens de pedofilia em seu computador), ao fim da longa jornada de relatos de horrores revelados agora em janeiro, Nassar poderá passar até 175 anos na cadeia, com direito a alguma redução de pena. Mas há uma certeza: ele ficará, merecidamente, o resto da vida na prisão.

Ao longo de sua carreira, Nassar tratou de lesões de atletas de corrida, de canoagem, de tênis e, principalmente, de ginástica artística. Contratado pela USA Gymnastics, a federação nacional do esporte, ele atendia as pequeninas ginastas tanto em sua clínica na Universidade de Michigan quanto nos mais renomados campos de treinamento dos Estados Unidos, além de acompanhar a equipe americana — atualmente a melhor do mundo — em campeonatos e Olimpíadas. Pois agora se sabe: o médico incensado, celebridade em seu ramo, abusou das pacientes que quis, pelo tempo que quis. Várias relatam o primeiro assédio aos 9 ou 10 anos. Jordyn Wieber, medalhista olímpica em 2012, lembrou o sofrimento do grupo em Londres: “Nosso corpo estava no limite. E quem a federação manda para cuidar da nossa saúde e nos ajudar a suportar a pressão? O médico que abusava de nós. O médico pedófilo”.

McKayla Maroney, outra das “cinco furiosas” que encantaram público e juízes na Olimpíada londrina, revelou que se tornou vítima de Nassar quando tinha 13 ou 14 anos. “Sempre que este homem achava uma oportunidade, ele me punha em ‘tratamento’. Aconteceu em Londres, na noite anterior à medalha de ouro por equipe, e de novo na noite antes de eu ganhar a prata”, contou. E concluiu: “Ele é um pedófilo, um ser humano monstruoso. Ponto-final.” Aly Raisman, que brilhou na Olimpíada do Rio, era só raiva ao olhar para o médico e dizer: “Como você é doente. Mentiu para mim, me manipulou, me fez acreditar que fechava os olhos quando me tratava porque estava cansado, quando na verdade estava me tocando, a mim, uma criança inocente, por prazer”.

Vítimas – Simone Biles (acima), cinco medalhas na Olimpíada do Rio, demorou, mas admitiu que foi abusada nos “tratamentos” que Nassar também aplicava à colega de equipe Aly (abaixo, à dir.) e a McKayla, campeã em Londres

Vítimas – Simone Biles (acima), cinco medalhas na Olimpíada do Rio, demorou, mas admitiu que foi abusada nos “tratamentos” que Nassar também aplicava à colega de equipe Aly<em (Alex Livesey/Getty Images, Brian Snyder e Brendan McDermid/Reuters)

A mais novinha a testemunhar, Emma Ann Miller, 15 anos, disse ter sido abusada desde os 10. “Fui atacada sexualmente por Larry Nassar inúmeras vezes, em inúmeras consultas. Meu último tratamento foi em agosto de 2016. Sou provavelmente a última criança de quem ele abusou.” A maior ginasta da atualidade, a fenomenal Simone Biles, quatro medalhas de ouro e uma de bronze nos Jogos do Rio, não foi ao tribunal nem mandou depoimento escrito, como outras fizeram. Mas finalmente, perto da conclusão do julgamento, uniu-­se às colegas. “Sou uma das sobreviventes que foram atacadas sexualmente por Larry Nassar”, publicou no Twitter. “Tentei calar a voz que gritava na minha cabeça. Não sinto mais medo de contar minha história.”

O método mais usado por Nassar era pôr suas vítimas de bruços na mesa de exames e penetrá-las com os dedos, insistentemente, até uma hora seguida, a título de “manipulação” para tratar dores. Falava sem parar durante o ato, como se nada demais estivesse acontecendo. Às vezes os pais se encontravam na sala e, garantem, nada percebiam. As garotas dizem que acreditaram durante muito tempo que aquele era, de fato, um tratamento válido e comprovado. Treinadas desde cedo para suportar agruras e privações na busca da medalha dourada, e apoiadas por pais e mães nessa empreitada, as pequenas ginastas, em geral, se calavam. No fim da carreira, McKayla processou a federação por não tê-la protegido do médico; acabaram assinando um acordo do qual ela saiu, em dezembro de 2016, com 1,25 milhão de dólares.

Acusações de assédio sexual no esporte ainda são raras, inclusive pelo desinteresse dos cartolas em expor membros de times que estão ganhando. O treinador assistente de futebol americano da Universidade da Pensilvânia, Jerry Sandusky, passou décadas abusando de adolescentes até ser finalmente condenado de trinta a sessenta anos de prisão, em 2012, quando já tinha 68 anos. No fim dos anos 1990, a bielorrussa Olga Korbut, a primeira garota a maravilhar o mundo aos 17 anos com suas acrobacias na Olimpíada de Munique, em 1972, revelou que pouco antes dos Jogos começou a ser estuprada por seu técnico, Renald Knysh, que assumiu total controle da sua vida. “Era a escrava sexual dele”, declarou.

A primeira – Olga no pódio, em 1972: “escrava sexual” do técnico soviético

A primeira – Olga no pódio, em 1972: “escrava sexual” do técnico soviético (Bettmann/CORBIS/Latinstock)

No Brasil, o caso mais clamoroso foi o da nadadora Joanna Maranhão, que, já adulta, denunciou ter sido abusada por seu técnico, Eugênio Miranda, quando tinha 9 anos. O crime nunca foi punido, porque já estava prescrito, mas a revelação de Joanna resultou em uma mudança na legislação para permitir que adultos abram processo contra estupradores que os tenham atacado na infância (a prescrição começa a valer a partir da maioridade da denunciante). Indagada sobre a possibilidade de um Larry Nassar infiltrar-se na ginástica artística brasileira, a atleta Daniele Hypolito, que aos 33 anos continua treinando, disse achar isso difícil, por causa da fiscalização constante de familiares das ginastas. “O ambiente no Brasil não é propício. Aqui a presença do pai, da mãe, dos irmãos nos treinos e competições é muito maior do que nos Estados Unidos, onde as atletas conquistam sua independência muito cedo. A troca de informações é muito maior, e um caso assim certamente seria percebido”, diz.

Nos Estados Unidos, à medida que o crime se agigantava, autoridades foram caindo. O Comitê Olímpico americano exigiu a substituição de todos os membros da federação de ginástica e a aprovação de normas para evitar abusos. A reitora e a direção do departamento de esportes da Universidade de Michigan se afastaram. Os centros de treinamento — inclusive o célebre Karolyi Ranch, da dupla que treinou a maior lenda do esporte, Nadia Comaneci — foram descredenciados.

Algemado, barba por fazer, cara de coitado, Larry Nassar foi incinerado no incêndio do #MeToo. A juíza Rosemarie Aquilina serviu de lança-chamas. No tribunal do Estado de Michigan onde o médico, que se declarou culpado, foi ouvir a sentença (a confissão autorizou a evidente parcialidade da magistrada), Rosemarie montou uma tribuna para as vítimas. “Deixem sua dor aqui, saiam e vão viver uma vida magnífica”, disse ela. Resultado: os 88 testemunhos previstos duplicaram, um atrás do outro, com mais e mais mulheres querendo desabafar. Ao decidir pela pena de no mínimo quarenta anos, com recomendação de chegar a 175, Rosemarie — apelidada de Barracuda Aquilina — decretou: “Assinei sua sentença de morte”. Pelo menos nos EUA, não se mexe mais com mulheres como antigamente.

Publicado em VEJA de 7 de fevereiro de 2018, edição nº 2568