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O leme do leme

Ou: quando um problema pode ser o início de uma microrrevolução

Por Fernando Grostein Andrade 23 nov 2018, 07h00

Num seminário de inovação a que fui convidado ouvi uma história que achei inspiradora. Um palestrante contou que em algum lugar do mundo engenheiros haviam construído um imenso navio e estavam diante do seguinte desafio: fabricar um motor potente o bastante para mover o gigantesco e pesado leme daquela igualmente gigantesca e pesada embarcação. Foi quando alguém teve a ideia genial de substituir o motor potente por um microleme — leve e pequeno o suficiente para ser instalado na ponta do leme gigante, de modo a ser capaz de movê-lo e, por consequência, também o navio. Não sei se a história é real, mas vale pela poesia da metáfora.

São fartas as evidências de que estamos sendo manipulados: pelos viciantes algoritmos das redes sociais, pelas informações falsas, por campanhas de toda natureza e até pelos fabricantes de junk food, rica em porcarias que viciam mais que certas drogas. A manipulação é jogo de gigantes: há duas semanas, o jornal The New York Times revelou práticas nada republicanas de um colosso das redes sociais. Grandes empresas, como algumas montadoras, volta e meia são pegas na tentativa de mentir a seus consumidores.

Na semana passada, o algoritmo de uma rede social colocou na minha timeline um vídeo bizarro, em que um vereador idem promovia uma urgente blitz contra a imoralidade, mostrando em seu celular cenas “chocantes” ao som da trilha sonora da série Arquivo X: um professor havia levado um grupo de alunos a um museu onde — escândalo! — estavam expostas perigosas pinturas com manifestações eróticas. É claro que o vereador expôs seu pequeno show de horror para se alavancar, mas se esqueceu de que basta acessar a internet para encontrar um vasto cardápio de opções para todo tipo de gosto sexual: seios, falos, bundas, fantasias eróticas. Em vez de pensar em capacitar os jovens para lidar com a explosão de informações sobre a sexualidade, a hipótese genial do “vereador promotor da moral e dos bons costumes” era que os professores estavam maculando a inocência dos menores ao permitir que “pela primeira vez” vissem retratos da sexualidade num museu.

Ora, não se trata de incentivar a se­xua­li­dade precoce, mas de preparar os jovens para lidar com ela e, consequentemente, evitar gravidez na adolescência, mortes em abortos clandestinos, DSTs, suicídios e abuso de drogas.

Precisamos nos capacitar para exercer a nossa liberdade com responsabilidade. Nesse sentido, é fundamental o papel do jornalismo profissional para revelar a complexidade da verdade — algo que os algoritmos programados exclusivamente para viciar desprezam. É fundamental ter a consciência do poder de inspiração de cada um: do professor, do policial, dos burocratas, artistas, empresários, alunos e cidadãos na sua microesfera de poder. É fundamental manter a lucidez diante das ofertas viciantes. E é fundamental nunca desprezar as microrrevoluções que passam na nossa vida disfarçadas de problemas — e que podem esconder o leme do leme no destino das nossas embarcações.

 

Publicado em VEJA de 28 de novembro de 2018, edição nº 2610

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