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O latido de Rex

Rex Tillerson diz que um golpe militar poderia ser bom para a Venezuela e, em visita à América Latina, junta-se à lista de estrangeiros que ignoram o Brasil

O Brasil tem sido sistematicamente evitado pelos líderes mundiais que visitam a América Latina. Em junho último, a chanceler alemã Angela Merkel esteve em dois países da região. Em agosto, o vice-presidente americano Mike Pence perambulou por quatro. No mês seguinte, o premiê israelense Benjamin Netanyahu visitou três. Na semana passada, o secretário de Estado americano Rex Tillerson, com seu jeitão de agente soviético, fez um giro por cinco nações. Nenhum deles pisou no Brasil. E todos, sem exceção, se encontraram com o presidente argentino Mauricio Macri.

O pouco-caso com o Brasil pode incomodar os mais patriotas, mas tem explicação simples. O atual governo brasileiro é visto como transitório. Com a eleição em outubro, um novo presidente assumirá em janeiro. “As viagens são importantes para construir relacionamentos que possam ter efeitos de longo prazo. Com o Brasil às vésperas de uma dança das cadeiras, há um consenso no exterior de que é melhor esperar antes de desembarcar em Brasília”, diz Oliver Stuenkel, professor de relações internacionais da Fundação Getulio Vargas, em São Paulo. Macri, em contrapartida, tem mais dois anos na Casa Rosada e boas chances de conseguir um segundo mandato nas urnas.

A presença de México e Colômbia no itinerário de Tillerson, dois países que terão eleições neste ano, justifica-se por outros motivos. “México e Colômbia estão no centro de alguns dos principais problemas que afligem a administração de Donald Trump, como os imigrantes ilegais e o combate às drogas”, diz Stuenkel. Os Estados Unidos também têm falado bastante da crise na Venezuela, mas o Brasil não vem demonstrando musculatura diplomática para conter a ditadura de Nicolás Maduro.

A falta de uma política externa americana clara torna quase impossível induzir as razões para as escolhas de países a visitar. Sem credibilidade para recrutar quadros com experiência, o governo Trump deixa as decisões importantes nas mãos de novatos. “Ninguém sabe o que está acontecendo na Casa Branca. Não faço ideia do que levou Tillerson a ir à Jamaica, por exemplo”, diz Riordan Roett, diretor do programa da América Latina na Universidade Johns Hopkins, em Washington.

Antes de partir para sua viagem, em um discurso em uma universidade no Texas, Rex Tillerson chegou a aventar a possibilidade de uma saída heterodoxa para a Venezuela: um golpe militar providencial — uma ideia que o mundo diplomático poderia apelidar de “latido de Rex”. Ele afirmou que a saída militar é comum na América Latina, mas, para compensar a batatada, acrescentou que gostaria de uma mudança pacífica. Ao ser perguntado sobre a famosa Doutrina Monroe, segundo a qual as nações latino-americanas devem ser lideradas pelos Estados Unidos, Tillerson respondeu: “Claramente tem sido um sucesso”.

Publicado em VEJA de 14 de fevereiro de 2018, edição nº 2569

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