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O gigante sorrateiro

É grande, chega sem ninguém ver e engole tudo? Então tem dinheiro chinês no meio — para Hollywood, uma salvação que a guerra comercial de Trump põe em risco

Lá, só se fala disso: a belíssima Fan Bingbing, de olhos fogosos e pele de porcelana, trancou-se em casa e dela não sai, porque está sendo acusada de sonegar impostos — crime gravíssimo na República Popular da China. A atriz e cantora é a celebridade mais bem paga de seu país. Mas, se o indiciamento por evasão fiscal se confirmar, está lascada: nada se compara à severidade com que a China comunista castiga os crimes contra seu capitalismo. Notícia curiosa, mas que nada tem a ver com você, aqui, que mal se lembra de ter visto Fan em X-Men — Dias de um Futuro Esquecido? Que engano. Astros envolvidos em escândalos são sintoma sine qua non de uma indústria de cinema ativa e aquecida — e a da China está bombando não só no território doméstico, como também em Hollywood, de que se tornou importante financiadora. O iuane, a moeda chinesa, está em cartaz neste momento em Arranha-Céu, com Dwayne Johnson, e em Missão: Impossível, com Tom Cruise. Está em lugares que você nem suspeita — em Sexy por Acidente, com a comediante bagaceira Amy Schumer (que nunca passaria pelo crivo dos censores chineses), e em A Grande Jogada, pelo qual Aaron Sorkin mais uma vez foi indicado ao Oscar de roteiro. E está estampado em cada fotograma de uma diversão como Megatubarão (The Meg, Estados Unidos/China, 2018), já em cartaz no país, em que o astro de ação Jason Statham e a starlet chinesa Li Bingbing — nenhum parentesco com Fan — caçam, adivinhe, um tubarão gigantesco e sorrateiro.

A quem achar que, nesse enredo, Hollywood é o tubarão e a China, o peixe-piloto que o segue, avisa-se: está aí outro engano. No primeiro trimestre deste ano, o mercado americano foi, pela primeira vez na história, ultrapassado na venda de ingressos — e em boa parte graças a sucessos nativos chineses, que nunca vão cruzar as fronteiras. Nos Estados Unidos, o número de espectadores decresce; na China, cresce a taxas que superam os 20% anuais, e o país ganha 26 novas telas de cinema por dia. Atender uma plateia de 1,4 bilhão de espectadores potenciais, que no ano passado gastaram 8 bilhões de dólares num cineminha, é imperativo. Mas, como o regime protege o cinema local limitando os títulos estrangeiros a 34 por ano, a saída simbiótica é a produção conjunta. Estúdios americanos às vezes pegam dinheiro chinês como mero investimento — como nos dois últimos Missão: Impossível. Outras vezes, unem-se a conglomerados chineses para fazer filmes endereçados ao mercado de lá. Ou tiram a média entre duas plateias tão diferentes, a ocidental e a chinesa, na tentativa de agradar a ambas.

Megatubarão ilustra de forma (involuntariamente) divertida a busca não muito fácil por um território comum. O inglês Jason Statham, que tem um dom singular para a boca suja, não fala nem o mais inocente palavrão durante todos os 113 minutos — nem ele nem ninguém mais. Desenha-se um romance entre Statham e Li Bingbing — cujo auge é um roçar de mãos. Numa sequência climática em que o megatubarão ataca banhistas, a graça acaba ficando com a moda praia chinesa: beldades com penteados armados vestem biquínis que teriam abalado os balneários socialistas lá por 1962. O dinheiro chinês é farto, mas vem com cláusulas logísticas e, sim, morais, detalhadas em documentos que explicam como tudo deve ser limpo, salutar e, de preferência, ter “energia positiva” (a expressão é textual). Na China, na prática não há de fato censura por idade: os filmes ou são liberados para todo o público, ou são banidos. Para o espectador do lado de cá, porém, a candura naïf de Megatubarão talvez esteja além do tolerável.

Esse descompasso é o oposto daquilo que os chineses almejam: o soft power, ou o poder de influenciar a arte, os costumes e o consumo por meio de produtos culturais, é um elemento indispensável ao plano da China de superar os Estados Unidos no xadrez geopolítico. Expor o país e sua gente e criar interesse — não apenas curiosidade — não basta; é preciso inserir-se na corrente pop. Para Hollywood, o mais poderoso braço do soft power americano, também se cria um impasse. Os negócios bilaterais explodiram com energia de supernova dois anos atrás: o grupo Dalian Wanda, de Wang Jianlin, o homem mais rico da China, e o Alibaba, de Jack Ma, prepararam-se para fechar contratos na casa dos bilhões de dólares com estúdios americanos, enquanto os visionários irmãos Joe e Anthony Russo, de Capitão América, fizeram acordos para produzir na China filmes para o mercado global e abriram um estúdio à parte para desenvolver projetos com super-heróis chineses. Agora, com a ofensiva tarifária de Donald Trump contra o rival comercial e as sucessivas retaliações da China, a expectativa é que o financiamento e o acesso ao mercado chinês definhem rapidamente. O tubarão encontrou outro pela frente — e a briga vai ser feia.


A tomada de Hollywood

Alguns exemplos do cinema americano que conta com investimento chinês — destinado sobretudo a filmes de ação estrelados por astros como Tom Cruise

 (Universal Pictures/Divulgação)

‘Arranha-Céu — Coragem sem Limite’ (2018)
A aventura-desastre, que se passa em Hong Kong, ex-protetorado britânico devolvido à China em 1997, tem forte presença chinesa no elenco e é estrelada por Dwayne Johnson, que os chineses adoram pelo humor ingênuo, pelas peripécias de circo e pelo jeitão “família”

 (Paramount Pictures/Divulgação)

‘Missão: Impossível — Nação Secreta’ (2015) ‘Missão: Impossível — Efeito Fallout’ (2018)
Em Efeito Fallout, o sexto filme da série protagonizada por Tom Cruise, a China não aparece como país produtor, mas boa parte do financiamento veio da Alibaba Pictures, integrante do conglomerado do bilionário chinês Jack Ma. Várias companhias chinesas entraram também na produção de outros filmes de Cruise, como A Múmia (2017) e Jack Reacher — Sem Retorno (2016)

 (Lionsgate/Divulgação)

‘Air Strike’ (2018)
Bruce Willis e Adrien Brody são os únicos ocidentais de renome nesta produção com lançamento previsto para este mês nos Estados Unidos: o elenco chinês estrelado é quem conta a história da resistência ao Japão durante a II Guerra Mundial, tema que apela ao sentimento nacionalista no país

 (SXT Entertainment/Divulgação)

‘A Grande Jogada’ (2017)
O premiado roteirista Aaron Sorkin estreou como diretor contando a história real da ex-esquiadora (Jessica Chastain, na foto com Idris Elba) que monta rodas de pôquer ilegais em Hollywood. É um ponto fora da curva na coprodução chinesa: não é filme de ação e não tem atores chineses

 (Universal Pictures/Divulgação)

‘A Grande Muralha’ (2016)
Dirigido por Zhang Yimou, o expoente da “quinta geração” dos cineastas chineses, trata de um forasteiro — papel de Matt Damon — que se aventura na fechada China medieval. Exemplifica outra linha da coprodução: a do filme que tenta atrair ocidentais mas é endereçado sobretudo ao público chinês

Publicado em VEJA de 15 de agosto de 2018, edição nº 2595