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O flanco aberto

Na versão de Sofia Coppola para 'O Estranho que Nós Amamos', um soldado refugia-se numa escola só de mulheres e arma uma teia de sedução

Cineasta que não gosta do caminho mais direto mas sabe aonde quer chegar, Sofia Coppola pinta uma Arcádia no sul americano da Guerra Civil: em uma escola para meninas regida com rigor maternal pela senhorita Martha (Nicole Kidman), a fumaça das batalhas é perceptível — mas a distância, obscurecida pelo musgo que pende das árvores e filtra a luz, protegendo do olhar a mansão ocupada por sete mulheres. Capinando a horta, carregando água (os escravos fugiram fazia tempo) ou conjugando verbos em francês, Martha, a professora Edwina (Kirsten Dunst) e as cinco alunas veem as fileiras de soldados passar — sempre do lado de fora. Quando algum deles toca o sino, Martha esconde as meninas e abre a porta com um revólver na cintura. Mas é na forma de erotismo, não de intimidação, que o sexo oposto vem se instalar no interior do casulo feminino. Amy (Oona Laurence), uma das alunas mais jovens, recolhe da mata John McBurney (Colin Farrell), um soldado nortista gravemente ferido. É duvidoso que ele sobreviva, mas Martha tira o chumbo de sua perna, costura a ferida e, enquanto ele está desacordado, o banha — e fica ela própria encharcada de suor com o contato íntimo. A toda hora, Martha afirma que vai entregar o nortista como prisioneiro às forças sulistas. Mas nem ela nem suas protegidas querem se privar dessa inesperada (e muito bem-apessoada) presença masculina.

Baseado no romance de 1966 do americano Thomas Cullinan, e também no filme homônimo que Don Siegel dirigiu e Clint Eastwood estrelou em 1971, O Estranho que Nós Amamos (The Beguiled, Estados Unidos, 2017), que estreia no país nesta quinta-feira, repropõe o conceito do material original por meio de uma sutil mudança. Ainda que, como East­wood, Farrell faça o papel de único galo do terreiro, a sua figura agora é muito mais reativa e suave do que propositiva e agressiva. McBurney admite ser desertor, e deixa claro que adoraria permanecer onde está, em troca de trabalho — e talvez de algo mais. “Suas rosas precisam de atenção”, diz ele, numa double entendre casual. Como persuasão, o soldado estuda suas anfitriãs e dá a cada mulher precisamente aquilo que ela deseja. Com Martha, é todo cavalheirismo e admiração. À insatisfeita Edwina, ele acena com romance. Para a indócil Alicia (Elle Fanning), dirige os olhares libidinosos. Amy ganha atenção fraterna e a perfeccionista Jane (Angourie Rice), elogios.

O homem como a parte do relacionamento que se molda à outra e busca aprovação pode soar como um conceito extemporâneo no século XIX, mas tem uma medida de raiz histórica no sul rural deixado a cargo das mulheres. McBurney entende que está em desvantagem; a certa altura, entretanto, ele erra o cálculo, favorecendo uma em detrimento de outras. O caldo entorna, e o soldado parte para o último recurso — a força. Como em outros filmes de Sofia Coppola, em particular As Virgens Suicidas (1999) e Maria Antonieta (2006), ambos também com Kirsten Dunst como pivô da ação, o círculo feminino parece vacilar, atemorizar-se e enfraquecer-se — mas, afinal, fecha-se, procurando alguma maneira de expelir de seu meio o corpo estranho. Alardear como feminista a versão de Sofia é reduzir a perspicácia da diretora, e o seu comentário ardiloso.

Publicado em VEJA de 9 de agosto de 2017, edição nº 2542