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O fim de uma era

A guerra ao terror deixou de ser prioridade para os Estados Unidos. A atenção se volta agora para Rússia, China, Coreia do Norte e Irã

Por Duda Teixeira - Atualizado em 30 jul 2020, 20h21 - Publicado em 27 abr 2018, 06h00

Na segunda-feira 23, o presidente francês Emmanuel Macron chegou a Washington, nos Estados Unidos, para uma visita de Estado. Ele foi o primeiro governante estrangeiro a ser convidado pelo presidente americano Donald Trump para essa que é a mais alta honraria numa relação bilateral. Na conversa que os dois tiveram na Casa Branca, os tópicos que geraram maior interesse foram o acordo para conter o programa nuclear do Irã e as negociações com a Coreia do Norte (veja a reportagem na pág. 65). O combate ao terrorismo foi mencionado, mas sem grande ênfase. Sinal dos tempos.

A destruição dos prédios do World Trade Center em Nova York, em 2001, fez do terrorismo islâmico a maior preocupação geopolítica dos Estados Unidos — e do mundo. Turistas passaram a ter de tirar os sapatos nos aeroportos. Soldados americanos embrenharam-se em cidades iraquianas e afegãs em operações de contrainsurgência. Agentes da CIA fizeram cursos de língua árabe e a agência montou prisões clandestinas para interrogar — e torturar — supostos terroristas. Em 2004, George W. Bush, que foi quem primeiro declarou a “guerra ao terror”, foi reeleito presidente dos Estados Unidos com a promessa de proteger seus cidadãos. O sucessor dele, Barack Obama, afirmou que sua prioridade era derrotar o Estado Islâmico (EI). Pois bem. Essa era acabou.

No documento de catorze páginas que sintetiza a nova estratégia de defesa americana, divulgado em janeiro, pouca gente percebeu que o terrorismo só é citado em oitavo lugar na lista de objetivos, com um total de onze itens. “A competição estratégica entre países, e não o terrorismo, é agora a principal preocupação na segurança nacional americana”, sentencia o relatório assinado pelo secretário de Defesa, James Mattis. O documento traz várias menções à China e à Rússia, que estariam tentando moldar o mundo de acordo com seu modelo autoritário. A Coreia do Norte é acusada de praticar ações ilegais e de não cumprir com as sanções da ONU. O Irã, de desafiar a estabilidade do Oriente Médio. “Os americanos fizeram essa mudança por necessidade geopolítica. Não foi algo ideológico de Donald Trump. A emergência de outros atores no cenário global forçou a superpotência a repensar em como se relacionar com eles”, interpreta Paulo Filho, especialista em assuntos de defesa e coronel de cavalaria do Exército brasileiro.

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AFINADOS – Macron em visita a Trump: o programa nuclear iraniano e o comércio global dominaram as conversas Kevin Lamarque/Reuters

A preocupação com o terrorismo não sumiu, mas perdeu relevância. Entre 2014 e 2016, o número de mortos em atentados caiu 22% em todo o mundo, segundo a ONG Vision of Humanity. O motivo decisivo para a queda foi o combate ao Boko Haram, na Nigéria, por uma força conjunta de vários países. Os próximos levantamentos devem mostrar uma redução ainda maior. Em 2016, o último ano contemplado pelo estudo, o Estado Islâmico respondia por metade das fatalidades. Desde então, o grupo perdeu terreno, receita e capacidade de recrutamento. Hoje, controla 3% da área que já teve.

Isso não significa que a possibilidade de grandes atentados tenha sido definitivamente afastada, mas que essa não é mais uma ameaça considerada existencial para as democracias. Em 2011, forças especiais americanas mataram o terrorista Osama Bin Laden no Paquistão, deixando sua rede terrorista, a Al Qaeda, acéfala. Além disso, ações de inteligência frustraram a maior parte dos planos de atentados no Ocidente. Em contrapartida, proliferaram os lobos solitários, que agem sozinhos. Foram eles os responsáveis por assassinatos a facadas e atropelamentos que ocorreram em diversos países europeus.

A tática instaurou pânico, mas sua banalização também fez com que os extremistas perdessem a primazia do terror. Na segunda-feira 23, o cientista de computação Alek Minassian, de 25 anos, jogou uma van contra pedestres em Toronto, no Canadá. Matou dez pessoas e feriu catorze. Um dia depois, o primeiro-ministro Justin Trudeau afastou a hipótese de terrorismo. Minassian sofre de problemas mentais e se revoltou por não conseguir ter relações com mulheres.

No mesmo dia do episódio no Canadá, um porta-voz do Estado Islâmico conclamou os seguidores a atacar em países árabes. Com alvos mais acessíveis, o grupo quer mostrar que ainda está ativo — mas a declaração apenas serviu para confirmar seu enfraquecimento. “Operações contra a Al Qaeda e o EI serão cada vez mais feitas localmente por países aliados dos Estados Unidos, o que põe a guerra ao terror em segundo plano”, diz Matthew Wallin, analista político do American Security Project, em Washington. A estratégia de defesa dos Estados Unidos aponta a necessidade de focar novamente os esforços e recursos de suas forças para travar guerras convencionais. Mais premente para os americanos, hoje, é conter as ambições do norte-coreano Kim Jong-un, do russo Vladimir Putin, dos aiatolás iranianos e do chinês Xi Jinping. Já é problema demais para lidar.

Publicado em VEJA de 2 de maio de 2018, edição nº 2580

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