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O filho do meio

Sobrecarregado pela tarefa de honrar o pai e superar o irmão mais velho, 'Os Últimos Jedi' só engata no terço final

Nos cinemas, 2015 terminou ao som de um “ohhhh”: uma exalação coletiva de espanto provocada pelo desfecho de Star Wars — O Despertar da Força. Ao colocar a jovem heroína Rey (Daisy Ridley) frente a frente com o calejado herói Luke Skywalker (Mark Hamill), numa cena plena de surpresa, o diretor J.J. Abrams conseguiu unir o ciclo iniciado nos anos 70 ao que recomeçava ali por meio da sensação que é o âmago da saga — a de que um destino inapelável rege seus personagens. Não há como imaginar um “gancho” melhor. Retomar o fio a partir daquela imagem, da constatação monumental estampada no rosto de Rey e da amargura nas rugas de Luke, é tudo de que Star Wars — Os Últimos Jedi (Star Wars: The Last Jedi, Estados Unidos, 2017; já em cartaz no país e em todo o universo conhecido) necessitaria para se acomodar com naturalidade à missão dos filmes intermediários das trilogias. Pois o que se tem é o desperdício de um instante perfeito. Sobrecarregado pela tarefa de honrar o pai, George Lucas, e também sair da sombra do irmão mais velho, J.J. Abrams, o diretor e roteirista deste oitavo episódio de Star Wars, Rian Johnson, faz aquilo que às vezes fazem os filhos do meio ansiosos por se afirmar: decide que vai fazer as coisas de um jeito diferente — não por ele ser melhor, mas porque é seu.

Assim, em vez de fisgar o espectador pela emoção deixada pronta por O Despertar da Força, este Os Últimos Jedi o submete a uma avalanche de trama detalhada nas suas minúcias. A galáxia, como sempre, está no que parece ser um estertor final contra a tirania. Com seu poderio, a Primeira Ordem do líder supremo Snoke (Andy Serkis) reduziu a Resistência da general Leia (Carrie Fisher) a umas poucas centenas de valentes mal armados, embora munidos de determinação férrea. Se Snoke quer o poder puro e simples, seu maior guerreiro, Kylo Ren (Adam Driver), é movido por uma sede que não se aplaca — vingança. Mergulhado no lado escuro da Força, Kylo já matou seu pai, Han Solo (Harrison Ford). Em seu caminho, agora, estão sua mãe, Leia, e a mais brilhante centelha de esperança que ainda resta: Rey, que o feriu quase de morte já na primeira vez em que empunhou um sabre de luz. Rey, está claro, transborda a força e a honra dos quase extintos guerreiros Jedi, e pode se tornar invencível até para Kylo.

Força antiga – Mark Hamill, como Luke, o guerreiro cansado da batalha, e Carrie Fisher, morta em dezembro de 2016, como Leia: transição para o futuro

Força antiga – Mark Hamill, como Luke, o guerreiro cansado da batalha, e Carrie Fisher, morta em dezembro de 2016, como Leia: transição para o futuro (Lucasfilm Ltd/Divulgação)

As peças são conhecidas, assim como o seu arranjo. Mas Johnson as posiciona no tabuleiro com demora exasperadora. Longas sequências são dedicadas às aflições do pusilânime general Hux (que Domnhall Gleeson interpreta com um sotaque pernóstico de ator inglês da década de 40) e aos intrincados esforços do renegado Finn (John Boyega) e sua nova amiga, Rose (Kelly Marie Tran), para desativar um rastreador na nave de Snoke. Há intermináveis brigas entre o piloto rebelde Poe Dameron (Oscar Isaac) e a vice-almirante Holdo (Laura Dern, com uma péssima peruca lilás). E Luke Skywalker rejeita repetidas vezes os apelos de Rey, embora esteja claro que, sem ele, a Primeira Ordem vai prevalecer. É um desproveito do capital emocional que a plateia cultivou com tanta dedicação, e que está sempre tão pronta a investir de novo nesses personagens e nos seus intérpretes — a tal ponto que até as cenas que Carrie Fisher já havia gravado antes de sua morte, em dezembro passado, perdem muito da pungência que naturalmente teriam.

Só no último terço do filme Johnson afinal cede ao empuxo que marcou os melhores momentos da saga. Aí, Os Últimos Jedi deslancha — ou, mais propriamente, começa de fato —, com uma fiada de embates dramáticos. Um deles, em especial, se alça à escala que O Despertar da Força prenunciara. Num deserto de sal branco que, a cada passo que se dá sobre sua superfície, revela um substrato vermelho-sangue, tem lugar um enfrentamento impregnado das terríveis amarguras filiais e paternas que estão no cerne da saga. Nas cores, nas proporções e na trilha que atinge seu ápice, Star Wars de repente adquire algo de ópera trágica: um homem distorcido pelo ódio se bate com o fantasma que o atormenta, e que nunca deixará de persegui-lo porque faz parte dele. É um libreto perfeito para um filho do meio, imprensado entre o que o antecedeu e o que vai suceder-lhe. Quando deixa de resistir a esse enredo e por fim o abraça, Os Últimos Jedi afinal cumpre seu destino.

Publicado em VEJA de 20 de dezembro de 2017, edição nº 2561