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O enigma Bolt

O homem mais rápido do mundo fará sua última prova — e deixa uma pergunta: por que ele foi tão dominante? Serão os 13% a mais de força na perna direita?

Usain Bolt, de 30 anos, o homem mais rápido do mundo, calçará suas sapatilhas pela última vez no próximo sábado, 5, no Campeonato Mundial de Atletismo em Londres. O adeus se dará no Estádio Olímpico, inaugurado nos Jogos de 2012 e desde então usado com frequência, o avesso do que acontece com as instalações olímpicas do Rio de Janeiro. O sumiço de Bolt deixa um vazio. Busca-se um sucessor, mas não há. Fazer a fila andar é oxigênio da história do esporte. Para o caso de Michael Phelps, o homem-­peixe, o jogo já está resolvido, com a fenomenal Katie Ledecky. Na semana passada, a nadadora americana tornou-se a recordista entre as mulheres em vitórias no Mundial de Esportes Aquáticos. Mas Bolt não deixa herdeiros.

Uma questão continua sem resposta: por que ele dominou por tanto tempo as provas de curta distância, de 2008 até hoje? Foram oito medalhas de ouro olímpicas (a nona, no revezamento 4 x 100, lhe foi subtraída, em virtude da descoberta do doping de um dos corredores da Jamaica, na Olimpíada de 2008). Seus recordes mundiais parecem inalcançáveis: 9s58 nos 100 metros e 19s19 nos 200 metros.

Já foram aventadas diversas teses para explicar o fenômeno Bolt: de uma predisposição genética do negro jamaicano (bobagem, sem comprovação alguma) à predileção dos moradores da pequena ilha do Caribe pelas provas de velocidade (é verdade, mas americanos também gostam de correr). O doping, ao menos no caso dele, jamais foi posto em cena. No mês passado, em um simpósio de biomecânica, apresentou-se um novo achado sobre a rapidíssima toada de Bolt: a perna direita do jamaicano toca o solo com 13% mais força do que a esquerda, o que lhe daria mais impulso. Em outros velocistas, a discrepância não passa de 3%. Seria essa a explicação definitiva? É uma possibilidade, mas pode ser apenas uma adaptação de Bolt a uma escoliose incômoda. “Sempre me diverti, mas já cumpri meus objetivos e chegou a hora de parar”, diz.

Publicado em VEJA de 2 de agosto de 2017, edição nº 2541