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O crime compensa (e entedia)

Versão feminina dos filmes de roubo espetacular, 'Oito Mulheres e Um Segredo', com Sandra Bullock, reúne gangue de boas atrizes em torno de um enredo morno

Por Jerônimo Teixeira - 8 jun 2018, 06h00

Em 2001, o diretor Steven Soderbergh revitalizou um gênero que apela às fantasias transgressoras até do mais comportado espectador: o filme sobre o grande roubo, em que virtuoses da gatunagem cometem o crime espetacular recorrendo não à violência, mas ao planejamento cerebral e à competência técnica. Com George Clooney à frente de um elenco estelar, Onze Homens e Um Segredo — refilmagem do original de mesmo título com Frank Sinatra e Dean Martin — teve duas continuações não tão inspiradas. Surge a terceira, com novo elenco: no espírito feminista que hoje anima Hollywood, Oito Mulheres e Um Segredo (Ocean’s 8; Estados Unidos; 2018), já em cartaz no país, traz um time de mulheres que supera os bofes liderados pelo Danny Ocean de Clooney. No comando da gangue está Deb­bie Ocean (Sandra Bullock) — irmã de Danny —, que em seus anos na prisão concebeu um plano para roubar um colar de 150 milhões de dólares durante o Met Gala, o mais exclusivo evento social de Nova York.

Anne Hathaway, no papel de Daphne Kluger — a atriz de cujo gracioso pescoço o colar milionário será surrupiado —, faz uma caricatura sem cor nem graça de uma diva de Hollywood. Sandra Bullock, Cate Blanchett, Sarah Paulson e até a pop star Rihanna compensariam a canastrice da colega — se o diretor e roteirista Gary Ross (Soderbergh retirou-se para a produção) não houvesse confiado só na força das atrizes para sustentar seu filme. O plano do roubo, como de praxe no gênero, é implausivelmente engenhoso, e sua realização transcorre com uma placidez ainda mais inacreditável. As meliantes esbarram em percalços passageiros, mas nada capaz de fazer o espectador aproximar-se um centímetro sequer da beira da poltrona. Parece até que roubar uma joia rara da Tiffany’s no meio de um evento vigiado por câmeras e seguranças é moleza — quando, na verdade, se trata de uma façanha quase tão difícil quanto fazer um bom filme a respeito.

Publicado em VEJA de 13 de junho de 2018, edição nº 2586

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