O conflito entra em outra fase

Ofensiva da Turquia contra os aliados curdos dos Estados Unidos escancara a crescente irrelevância americana na definição dos rumos da guerra civil na Síria

Por Diogo Schelp - Atualizado em 31 jan 2018, 16h24 - Publicado em 26 jan 2018, 06h00

Uma operação militar da Turquia, iniciada no sábado 20 com bombardeios e complementada quatro dias depois com uma invasão terrestre, marcou o princípio de uma nova fase da guerra civil na Síria. O objetivo da ofensiva é conter o domínio de milícias curdas em territórios contíguos à fronteira com a Turquia, num desafio direto aos planos americanos. Dias antes dos ataques, o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Rex Tillerson, havia anunciado que seu país pretendia ajudar os curdos da Síria a montar uma força de 30 000 homens para patrulhar a fronteira, por onde, nos últimos anos, transitaram quase livremente armas e recrutas para o Estado Islâmico (EI). Desde que foi expulso da cidade de Raqqa, em outubro passado, o exército terrorista tem um pé na cova, mas seus homens estão à solta, apenas esperando o melhor momento para se reagrupar. O perigo, portanto, persiste, e os Estados Unidos consideram que as Unidades de Proteção Popular (YPG, na sigla em curdo), que abarcam as milícias curdas, continuam sendo seu melhor aliado em solo para contê-lo.

Ocorre que o ocaso do EI provocou uma reacomodação de prioridades e alianças no complicado mosaico do conflito sírio, que se desenrola desde 2011 e já provocou a morte de 400 000 pessoas, segundo estimativa do Banco Mundial. O EI era o único ator da guerra civil contra o qual todas as outras forças lutavam. Com o inimigo unânime em grande medida fora do jogo, as demais rivalidades vão aflorar com mais violência. Na Síria, o ditador Bashar Assad tem o apoio da Rússia, do Irã e da milícia xiita libanesa Hezbollah. Os Estados Unidos, à frente de uma coalizão de nações árabes, defendem a deposição de Assad. A Turquia foi o primeiro país a desejar a queda do ditador sírio e continua com essa meta, mas conta com a anuência da Rússia e de grupos rebeldes sírios islamistas para atacar os curdos.

Os curdos são uma etnia numerosa (40 milhões de pessoas) que vive espalhada em territórios da Síria, da Turquia, do Iraque e do Irã. O presidente turco Recep Erdogan insiste na tese de que as YPG, depois de consolidarem seu poder no Curdistão sírio, juntarão esforços com o PKK, partido separatista curdo da Turquia classificado como grupo terrorista por Ancara, mas também por Washington e por Bruxelas. Os comandantes das YPG sempre suspeitaram que, depois de vencer o EI, seriam atacados pela Turquia. A incógnita, porém, era até que ponto os Estados Unidos continuariam ao seu lado.

O governo de Donald Trump encontra-se num impasse. De um lado, não pode confrontar a Turquia, que empresta uma de suas bases aéreas para os bombardeios americanos na Síria e é sua aliada na Otan, a aliança militar do Ocidente. De outro lado, precisa dos curdos para conter um eventual avanço do EI. Como em outras questões mundiais, os Estados Unidos estão sendo relegados a um papel de coadjuvante também no conflito sírio.

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Publicado em VEJA de 31 de janeiro de 2018, edição nº 2567

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