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O chefe tirano e Rex

Com a demissão de seu secretário de Estado, Trump reduz suas chances em política externa e reforça a convicção de que gestão de pessoas não é o seu forte

Em termos práticos, o presidente americano Donald Trump tem, ao seu estilo atabalhoado e barulhento, cumprido algumas promessas na política interna, mas nada digno de nota na externa. O anúncio de que pretende se encontrar com o ditador norte-coreano Kim Jong-un não avança um centímetro em relação às negociações que se arrastam por décadas. Não há por que acreditar que Kim abriria mão de seu programa nuclear em troca de reivindicações viáveis. Quanto ao Nafta, o acordo de livre-comércio com o México e o Canadá continua de pé, apesar das ameaças de Trump de rasgá-lo. O governante americano é menosprezado pelos principais líderes europeus. Chineses e russos parecem divertir-se com ele. “É muito difícil para outros países avançar em negociações com os Estados Unidos. Trump muda de ideia muito rapidamente e desautoriza seus principais assessores”, diz Jeffrey Wright, especialista em relações internacionais da consultoria Eurasia. Na semana passada, o presidente anunciou a demissão do secretário de Estado Rex Tillerson, que só soube da notícia pelo Twitter. “Desejo a Rex tudo de bom”, disse Trump. “Penso que ele vai ficar muito mais feliz agora.” Rex não foi o primeiro integrante da equipe de Trump que saiu de forma atribulada do governo (veja o quadro abaixo).

Durante os meros catorze meses à frente do Departamento de Estado, ele se desentendeu com Trump várias vezes. Apesar de seu jeitão de urso russo, Rex geralmente ficava do lado do bom-senso. Era a favor de os Estados Unidos permanecerem no Acordo de Paris para conter o aquecimento global e também na Parceria Transpacífica, o tratado de livre-comércio que foi pacientemente costurado por Barack Obama. Trump destruiu os dois acordos em seus primeiros dias. Em agosto, quando o presidente foi evasivo e não condenou os supremacistas brancos que haviam atacado manifestantes e provocado uma morte em Charlottesville, Rex disse que o chefe falava por si mesmo.

Mas o tema em que os atritos entre os dois mais apareceram foi a relação com a ditadura da Coreia do Norte. Quando o presidente ameaçava o país com uma ação militar, com “fogo e fúria”, como ele dizia, Rex insistia na diplomacia. Uma reportagem da NBC afirmou que Rex chamara Trump de “idiota” em uma reunião no Pentágono em julho. O presidente o desafiou a fazer uma comparação de testes de Q.I. Rex nunca pediu desculpas nem negou que tivesse dito o que disse. Em setembro, o secretário fez uma visita à China, onde afirmou ter duas ou três linhas de acesso aos dirigentes da Coreia do Norte. Trump o censurou publicamente pelo Twitter. “Você está perdendo seu tempo negociando com o homenzinho do foguete”, escreveu Trump. “Guarde sua energia, Rex. Nós faremos o que é preciso.”

Há duas semanas, quando a Casa Branca fez uma reviravolta e anunciou o interesse em um encontro pessoal com Kim Jong-un em maio, Rex já tinha sido escanteado. “Como é difícil saber qual é o posicionamento dos EUA em vários assuntos, ainda não estão claras quais podem vir a ser as conquistas de Trump em política externa”, diz o historiador John Lawrence, da Universidade da Califórnia.

A última dança das cadeiras em Washington ressalta a ascendência dos assessores mais belicosos. Quem assumirá o posto de Rex é Mike Pompeo, ex-diretor da CIA, a agência de inteligência americana. Pompeo tem um perfil similar ao do presidente. Ele nega o aquecimento global e é contra o acordo nuclear feito entre as potências mundiais e o Irã. A direção da CIA ficará com Gina Haspel, acusada de ter supervisionado a tortura de dois supostos terroristas da Al Qaeda na Tailândia, em 2002. Depois, ela mandou destruir os registros em vídeo. Em linhas gerais, a troca de Rex por Pompeo significa mais Casa Branca e menos Departamento de Estado. Mais falcões e menos pombas. Mais briga e menos conversa.

Com reportagem de Thais Navarro

Publicado em VEJA de 21 de março de 2018, edição nº 2574