Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Na calada da noite

'Um Lugar Silencioso' testa os limites das relações pessoais e até da interação humana com o mundo físico

É um contrassenso delicioso que o Michael Bay de Transformers, o mais barulhento de todos os cineastas, seja um dos produtores de Um Lugar Silencioso (A Quiet Place, Estados Unidos, 2018; estreia no país nesta quinta-feira), um combinado de horror e drama que, honrando seu título, se desenrola quase todo na ponta dos pés, aos murmúrios e em linguagem de sinais. Até a trilha de Marco Beltrami resiste a romper a quietude: numa Terra tão rapidamente esvaziada que se encontra quase intocada, qualquer ruído corriqueiro significa morte certa — uma voz humana, um talher contra um prato, um degrau que range bastam para atrair o ataque das criaturas responsáveis pela extinção quase completa da humanidade. Lee (John Krasinski) e sua família resistiram até aqui porque sua filha mais velha, Regan (Millicent Simmonds), é surda, e a comunicação por gestos é parte de sua rotina. Mas esse novo cenário pede compenetração absoluta. Exige, por exemplo, que se exista socialmente sem nenhuma possibilidade de vocalização e que se interaja com o mundo físico como se todo ele fosse uma armadilha. Lee e sua mulher, Evelyn (Emily Blunt, casada com Krasinski também na vida civil), entretanto, têm em mãos uma adolescente entrando na fase de rebeldia, um menino em pleno terror da puberdade (Noah Jupe, de Extraordinário) e também um bebê a caminho.

Em seu segundo longa como diretor/ator, Krasinski, de The Office, dá uma contribuição admirável ao novo cânone pós-apocalíptico, de filmes que, em vez de mostrar os cenários amplos da extinção, preferem espiá-la por uma fresta da intimidade familiar ou pessoal. Seu filme é cinema B de ótima qualidade, feito com pulso, com inventividade visual e trato ágil das convenções de gênero, e com comprometimento ferrenho do elenco — no qual se destaca a fabulosa Millicent, do recente Sem Fôlego, deficiente auditiva de fato. É mesmo de silenciar até Michael Bay.

Publicado em VEJA de 4 de abril de 2018, edição nº 2576