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Multa por excesso de velocidade

Essa corrida vertiginosa é um dos problemas do péssimo ensino

Deu na Tribune de Genève: pilotan­do a sua Ferrari, um certo senhor cruzou um vilarejo a mais de 200 quilômetros por hora. Foi multado em 3 000 francos suíços e preso sem direito a fiança.

Como meu espírito hoje é incendiário, proponho penas terríveis para autores de currículos e ementas de curso que são longos demais, obrigando os alunos a percorrer os programas em excesso de velocidade. Multa e prisão para eles.

Segundo o meu guru A.N. Whi­te­head, não importa tanto o que ensinar, mas que seja sem­pre em profundidade. Concluo então que para aprender muito é preciso ensinar pouco. A velocidade é fatal.

A abundante pesquisa hoje disponível nos permite saber que se aprende pela repetição, seja o saque do tênis, a ortografia, os verbos irregulares ou a elegância no escrever. Se é assim, aprendizado é função do tempo dedicado a praticar. Sem a repetição, apenas pensamos que aprendemos, mas continuamos sem saber. É a diferença entre ouvir falar e realmente dominar algum conhecimento.

Esse princípio nos leva a uma aritmética inelutável: se há coisas demais para aprender, por importantes que sejam, o tempo será repartido e insuficiente para cada uma. Assim sendo, o grande inimigo da educação é o excesso de velocidade com que avança a Ferrari curricular.

Mas é pior do que isso, pois gostamos do que entendemos e nos sentimos frustrados com o que não entendemos. Portanto, como ideias novas não entram instantaneamente na nossa cabeça, a primeira reação é negativa. Se batalhamos com elas, começamos a entender e, eureca, começamos também a gostar. Para que isso aconteça, é preciso que haja tempo.

Se o ensino roda com excesso de velocidade, passamos ao tema seguinte sem haver entendido o anterior. Portanto, é abandonado antes de começarmos a gostar dele. Ao fim do ano, não gostamos de nada e não aprendemos nada.

Deveria ganhar uma medalha o professor que arroste o sistema e ensine cuidadosamente apenas um terço da ementa de sua disciplina. Seus alunos saberão mais do que os outros.

Por que a Fórmula 1 dos currículos e ementas? Parece que os seus fabricantes pensam que o aluno só tem o assunto dele para estudar. Ademais, faz parte da nossa cultura acadêmica propor cursos para gênios, não para os alunos comuns, como se faz no Japão ou nos Estados Unidos.

Como não tenho dúvida de que essa corrida vertiginosa é um dos problemas do nosso péssimo ensino, insisto na multa e na prisão por excesso de velocidade para quem cometer esse crime de lesa-pátria.

Tenho mais uma sugestão (politicamente incorreta): o ministro da Educação e o presidente do Inep deveriam sempre se submeter oficialmente ao Enem e ter as suas notas postadas na internet. Desta forma, experimentariam de primeira mão o turbilhão de matérias que se enfia goela abaixo nos alunos do ensino médio. Quem sabe, isso aumentaria a sua motivação para multar os infratores?

Publicado em VEJA de 2 de agosto de 2017, edição nº 2541