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Muita faísca, pouca luz

A sobretaxa imposta a aço e alumínio anunciada por Trump para afagar seu eleitorado ameaça desencadear uma guerra comercial em que todos sairiam perdendo

Por Marcelo Sakate - 9 mar 2018, 06h00

“Esse alívio vai ajudar os trabalhadores de siderúrgicas, comunidades que dependem do aço, e a indústria vai se ajustar sem prejuízo à nossa economia.” Assim o presidente americano George W. Bush defendeu e justificou, em março de 2002, a decisão de impor tarifas de até 30% ao aço importado. A realidade, no entanto, mostrou-se outra: houve queda no fornecimento das matérias-primas, o que atrasou a produção. Os custos subiram, e a conta ficou com o consumidor americano. O emprego não melhorou. Diversos países contestaram a alta das tarifas na Organização Mundial do Comércio (OMC), que, em novembro de 2003, deu o veredicto de que a medida violou as regras internacionais. A entidade autorizou esses países a aplicar retaliações comerciais, como a cobrança de sobretaxas para produtos americanos, no valor somado superior a 2 bilhões de dólares. Bush filho acabou recuando e eliminou as tarifas sobre o aço em dezembro daquele ano.

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Se o passado serve como lição, ela foi triunfalmente ignorada pelo sucessor republicano de Bush na Casa Branca. Donald Trump anunciou no início do mês uma tarifa de importação de 25% sobre o aço e de 10% sobre o alumínio e recebeu uma enxurrada de críticas. Em tese, a medida valeria para todos os países, mas Canadá e México serão excluídos. Sobretaxas dessa magnitude praticamente inviabilizam a entrada do aço e do alumínio estrangeiros, que ficam caros demais para as indústrias que utilizam esses dois insumos. O presidente americano invocou uma lei dos tempos da Guerra Fria, de 1962, que, em nome da defesa da segurança nacional, autoriza a medida dispensando o aval do Congresso. “Quando um país está perdendo bilhões de dólares no comércio com virtualmente todos os países com os quais faz negócios, guerras comerciais são boas e fáceis de vencer”, disse.

A decisão rachou sua equipe de governo. O seu principal conselheiro econômico, Gary Cohn, ex-presidente do banco Goldman Sachs e defensor do livre-comércio, decidiu deixar o cargo. Até republicanos que costumam ficar ao seu lado, como o presidente da Câmara, Paul Ryan, demonstraram contrariedade: “Nós estamos extremamente preocupados com as consequências de uma guerra comercial e estamos urgindo com a Casa Branca para não seguir adiante com esse plano”, disse o deputado. Ele fez referência ao principal temor dos republicanos: alguns países afetados pela sobretaxa imposta ao aço e ao alumínio já anunciaram que vão retaliar e cobrar tarifas extras sobre produtos americanos. A União Europeia disse que a reação será “rápida, firme e proporcional”. Citou três ícones da cultura e dos negócios americanos como alvos potenciais: as motocicletas da Harley-Davidson, as marcas de uísque bourbon e os jeans da Levi’s.

Fora – Trump e seu assessor econômico, Gary Cohn: divergência e demissão Evan Vucci/AP e Manuel Balce Ceneta/AP

Sempre que se vê acuado por dificuldades políticas, Trump solta uma medida de grande impacto para cevar a sua base eleitoral. A decadente indústria do aço americano se concentra na região do rust belt (cinturão da ferrugem), área que foi determinante para a sua vitória eleitoral. Antes de isentar Canadá e México, Trump havia ameaçado os parceiros comerciais do Nafta, o acordo de livre-comércio da América do Norte. “O Nafta tem sido um mau negócio para os EUA. As tarifas sobre o aço e o alumínio só não vão ser cobradas (dos dois países) se um novo e justo acordo for assinado”, disse. O Canadá é o principal fornecedor de aço para os Estados Unidos; o México, o terceiro maior. O Brasil é o quarto, considerando os valores em dólares, e o segundo maior em toneladas. Um terço das exportações brasileiras de aço no ano passado, que totalizaram 8 bilhões de dólares, teve o mercado americano como destino. Os Estados Unidos são, de longe, os maiores compradores do produto brasileiro. Investidores se desfizeram de ações de siderúrgicas na bolsa brasileira: as da CSN caíram 11% em cinco dias; as da Usiminas, 7%. Por outro lado, a avaliação é que a Gerdau sai ganhando, uma vez que tem usinas importantes no território americano, que respondem por mais de 40% das receitas totais do grupo. Na indústria do alumínio, os efeitos diretos são limitados, já que apenas 10% da produção de manufaturados do metal é exportada. Mas a barreira americana vai gerar uma sobra de produção no mundo. “Temos duas preocupações: o aumento das importações pelo Brasil, num primeiro momento. E, depois, a maior dificuldade que teremos para exportar para outros mercados”, diz Milton Rego, presidente da Associação Brasileira do Alumínio.

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O Instituto Aço Brasil, que reúne as companhias do setor, pediu que o governo anuncie alguma medida de proteção comercial. O mais provável é que o país ingresse com uma ação na OMC, ao lado de outras nações, questionando as medidas protecionistas de Trump. Difícil é antever a reação do presidente americano caso seja condenado a recuar, sobretudo agora que ele tem perdido o apoio das vozes mais equilibradas de seu governo.

Publicado em VEJA de 14 de março de 2018, edição nº 2573

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