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Mudança de tom

A nova atitude do presidente eleito resulta da diferença abissal entre ser um candidato ao Palácio do Planalto e estar prestes a vestir a faixa presidencial

Eleito sob a suspeita generalizada de ser dono de uma inflexibilidade ordinária, o deputado Jair Bolsonaro, nestes primeiros dias depois da vitória nas urnas, tem exibido um comportamento oposto. Em campanha, sempre que uma declaração sua causava desconforto, protesto ou repúdio, o então candidato não perdia tempo para alegar que suas palavras não haviam sido bem interpretadas, ou haviam sido maliciosamente colocadas “fora de contexto”, ou não passavam de “uma brincadeira”. Agora, felizmente, Bolsonaro tem tido reações menos juvenis: ou volta atrás no que disse ou diz que o assunto em pauta ainda está em discussão.

O anúncio de que o Ministério da Agricultura seria fundido com o Ministério do Meio Ambiente, mudança que desagradou a ruralistas e ambientalistas, caiu nessa última categoria: não está decidido. Outro anúncio, o de que a Embaixada do Brasil em Israel seria transferida de Tel-­Aviv para Jerusalém, assunto incandescente no vespeiro do Oriente Médio, também mereceu reparos: é uma questão, ainda, em debate. Em campanha, Bolsonaro demonstrou, inúmeras vezes, sua antipatia em relação à China e à voracidade do capital chinês. Já eleito, suavizou seu tom.

A nova atitude do presidente eleito resulta, obviamente, da diferença abissal entre ser um candidato ao Palácio do Planalto e estar prestes a vestir a faixa presidencial. Ao postulante ao cargo, concede-se uma licença retórica mais ampla. Do eleito, ainda que não tenha tomado posse, cobra-se responsabilidade pelo impacto real do que diz. Tanto que o Egito cancelou a viagem do chanceler brasileiro em protesto contra a mudança da Embaixada do Brasil em Israel, e a China alertou Bolsonaro de que seria um risco hostilizar o país, alinhando-se acriticamente à política do presidente americano Donald Trump. São impactos reais.

No plano pragmático, Bolsonaro certamente não ignora que o Brasil tem um déficit no seu comércio com Israel — de 700 milhões de dólares até outubro —, enquanto tem superávit de 1,5 bilhão de dólares com o Egito. Com a China, hoje nosso principal parceiro comercial, a situação é ainda mais eloquente: o superávit brasileiro, até outubro, já passava de 23 bilhões de dólares.

A política externa de um país não deve pautar-se apenas pelo volume do comércio, implementando o que os veteranos do Itamaraty chamavam, depreciativamente, de “diplomacia de secos e molhados”, mas há que ter certo realismo pragmático. Além disso, Bolsonaro fez campanha acusando a política externa dos governos do PT de ser movida pela ideologia de esquerda e desprezar os interesses do Brasil. Não parece sensato que Bolsonaro faça a mesma coisa, só que com o sinal ideológico trocado. Nem que seja apenas porque, em sua campanha, adotou o slogan de colocar o Brasil “acima de tudo”. Por isso, é um bom sinal que tenha deixado no passado da campanha as desculpas pueris e adotado, pelo menos até aqui, uma abordagem mais moderada diante da vida real.

Publicado em VEJA de 14 de novembro de 2018, edição nº 2608