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Milionários contra Trump

Com pífio desempenho no Congresso, presidente americano tenta aprovar corte de impostos. Mas até os mais abastados do país estão indignados com a proposta

Por Johanna Nublat 17 nov 2017, 06h00

Depois de quase dez meses no comando da Casa Branca, e mesmo contando com a maioria republicana na Câmara dos Representantes e no Senado, Donald Trump tem tido dificuldade para avançar com alguma medida que possa chamar de sua e mostrar a seus eleitores que está fazendo algo de relevante. Seus colegas de partido não simpatizaram com sua proposta para sepultar o Obamacare, apelido dado ao plano de saúde feito por seu antecessor, Barack Obama, nem aceitaram aumentar verbas para construir um muro na fronteira com o México. Trump continua tentando. Na semana passada, ele voltou de uma viagem pela Ásia (cujo resultado mais vistoso foi o constrangimento que causou ao povo americano ao trocar elogios com o truculento presidente filipino Rodrigo Duterte) aplicando pressão sobre os congressistas para que aprovem uma reforma fiscal, antiga bandeira do Partido Republicano. “Animado por voltar para casa e ver a Câmara aprovar um ótimo projeto fiscal em que a classe média alcance um grande corte de impostos!”, tuitou o presidente. A empreitada, porém, que tem boa chance de ser a primeira grande conquista de Trump no Congresso, enfrenta fortes críticas — e conseguiu a proeza de ser atacada até por cidadãos que seriam beneficiados por ela.

O objetivo do projeto dos republicanos é aliviar a vida da classe média e o caixa das empresas, que, assim, alavancariam as contratações no país. Para atingir tal meta, estão sendo propostos cortes significativos nos impostos, a simplificação das taxas pagas pelos cidadãos e mudanças em deduções e impostos locais. Nem todos, porém, acreditam nas boas intenções da Casa Branca — ou do ricaço que comanda a nação. Tanto que 400 milionários e bilionários americanos, alguns deles integrantes do seleto grupo do 1% mais rico do país, divulgaram uma carta aberta com um anúncio inusitado: eles são contra o corte de impostos para eles mesmos. “Propostas como essas, que beneficiam os ricos, exacerbariam a atual disparidade de recursos nos Estados Unidos, em que a parcela 1% mais rica detém 42% da riqueza”, diz o texto assinado por nomes como o investidor George Soros e o ex-diretor da American Airlines Robert Crandall. A reprimenda foi organizada pelo Vozes pelo Progresso, um grupo de bem-afortunados, e pelo projeto Riqueza Responsável. Críticas à proposta republicana vieram também de outras frentes. Warren Buffett, o segundo homem mais rico do mundo, rejeitou a necessidade de um grande corte de impostos para tornar empresas competitivas.

É bem verdade que, num país com 5 milhões de milionários, a opinião de 400 ricaços pode não ser representativa do que passa pela cabeça de todos os beneficiados pelos cortes, mas eles estão corretos ao dizer que a reforma fiscal discutida no Congresso ampliaria a desigualdade nos Estados Unidos. A reforma faria com que o governo perdesse uma receita de 1,5 trilhão de dólares em uma década. “Isso levaria a cortes em programas críticos ou a aumento de taxas, o que recairia sobre famílias da classe média”, diz Alan Essig, diretor executivo do Instituto para Tributação e Política Econômica, de Washington.

Para driblarem o déficit provocado pela reforma e resolverem dois problemas de uma vez só, senadores republicanos propuseram, na terça-­feira 14, incluir no projeto a extinção da obrigatoriedade de cobertura do Obamacare. A medida foi adotada por Obama em sua reforma da saúde e enfrentou sucessivas tentativas de golpe dos republicanos desde que Trump assumiu, mas todas fracassaram. Com o fim desse expediente, o governo pouparia mais de 300 bilhões de dólares em subsídios durante uma década, abrindo espaço para o prometido corte de impostos voltado para a classe média. O plano derrubaria um dos pilares centrais da política de Obama e deixaria 13 milhões de pacientes desassistidos em 2027. Com esse novo toque, a reforma fiscal pode se transformar em algo ainda mais impopular e atrapalhar os republicanos na eleição legislativa do ano que vem. “O tempo dirá se a popularidade de Trump sofrerá erosão quando os detalhes da reforma emergirem. No prazo de quatro anos, as pessoas avaliarão se seu nível de bem-estar mudou para melhor ou pior”, diz o economista Dennis Hoffman, da Universidade do Estado do Arizona. “Na campanha, Trump focou a classe trabalhadora, cujos salários estão estagnados. Mas a reforma fiscal não tem nada a ver com ela. É um corte de impostos para gente como Trump”, diz Chuck Marr, do Centro para Prioridades de Orçamento e Políticas, em Washington. Trump, ao que parece, só dá ouvidos aos próprios interesses.

Com reportagem de Luiza Queiroz

Publicado em VEJA de 22 de novembro de 2017, edição nº 2557

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