Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Meu bem, meu mal

Estudo diz que empresa que investe em responsabilidade social e valores morais e éticos pode estar estimulando funcionários a se corromper em outras searas

Na psicologia social, há uma definição de comportamento conhecida como “licença moral”. É o consentimento que autoriza as pessoas que praticam uma boa ação a compensá-la com o avesso. Dito de outro modo: quando alguém está certo de ter feito o bem, com compaixão e generosidade, pode sentir-se liberado para fazer o mal, com posturas egoístas, preconceituosas, antiéticas e — que surpresa! — até corruptas. No mundo corporativo, em que se aplaudem as companhias que cultivam valores morais e éticos, com doações e responsabilidade social, os desvios costumam cair como baldes de água fria e decepção — e estão longe de representar uma raridade. “No Brasil, muitas das empresas que são investigadas em esquemas de corrupção têm o seu instituto e a sua fundação com ações filantrópicas, mas ao mesmo tempo estão envolvidas em conluio setorial, cartel implícito ou formas de ganhar recursos do BNDES”, diz Sérgio Lazzarini, professor titular do Ensino Superior em Negócios, Direito e Engenharia (Insper), em São Paulo, e colunista de VEJA.

Esse fenômeno acaba de receber amparo acadêmico. Um trabalho realizado pelos economistas John List e Fatemeh Momeni, da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, põe em xeque a tese da benevolência como uma postura inquebrantável. O estudo, publicado pelo Instituto Nacional de Pesquisa Econômica, entidade americana sem fins lucrativos, revela que trabalhar para uma empresa socialmente responsável pode motivar os empregados a agir de forma exatamente oposta em outras searas. Eles se tornam irresponsáveis, mais propensos a trapacear. Para os autores, o gesto de bondade deflagra uma espécie de crédito para praticar desvios em outros contextos.

Em seu experimento, List e Momeni recrutaram pela internet 3 000 trabalhadores temporários com algum conhecimento de alemão. Aos participantes era entregue um lote de dez imagens com textos curtos, em média com trinta palavras, em alemão — idioma no qual nenhum deles era fluente. Deveriam apenas copiar os termos estrangeiros. Além de receberem um pagamento para fazer parte do estudo, ganhavam um dinheiro extra correspondente a cada palavra copiada, mesmo aquelas que considerassem ilegíveis e não reproduzissem corretamente. Trapacear na encomenda seria fácil — bastaria a eles dizer que não conseguiram ler uma palavra e seriam pagos mesmo assim. Poderiam abandonar o trabalho depois de ganhar o dinheiro inicial. No contrato, os participantes eram informados de que um porcentual do valor que recebessem seria destinado a programas educacionais do Fundo das Nações Unidas para a Infância, o Unicef. O resultado: os que doavam mais para a caridade eram os que fingiam não entender as palavras para, mais rapidamente, faturar mais alto. Ou seja: como sabiam que parte do seu dinheiro iria para a caridade, sentiam-se autorizados a trapacear, dizendo não entender termos que eram plenamente legíveis, só para ganhar mais uns trocados. Topavam ajudar, mas, como se vê, tiravam uma casquinha. A má conduta dos funcionários é um problema comum e custoso para a realidade das organizações. Estima­-se que as companhias percam cerca de 5% de suas receitas anuais em decorrência de fraudes internas.

A explicação para a postura eticamente questionável estaria associada aos mecanismos de funcionamento da mente. “O comportamento pró-social é motivado, em parte, por razões de autoimagem: atuamos assim para sinalizar a nós mesmos que somos pessoas boas e morais”, explicou a VEJA a coautora do trabalho, Fatemeh Momeni. “O fato de a doação para a caridade fazer com que os trabalhadores se sintam bem em relação a si mesmos e aumentem a noção de uma boa auto­imagem lhes dá a licença para agir de forma menos ética mais tarde.” Agimos assim, no cotidiano, com nosso próprio corpo. É clássico, e risível, o ato compensatório quando se está de dieta. Uma semana inteira nas aulas de ginástica dá direito ao tão desejado doce e à sagrada cervejinha.

Mas, afinal de contas, todas as pessoas que doam trapaceiam? É atávico? Não necessariamente. A construção psicológica de que, “se fiz um bem, posso então relaxar e fazer algo errado” não é aplicada a todos, de modo incondicional. Há regras morais claras, muitas vezes jogadas para debaixo do tapete, mas que nunca deixam de incomodar, silenciosamente. Diz a psicóloga Denise Ramos, professora titular da PUC, em São Paulo: “Nenhum corrupto é inconsciente. A pessoa sempre sabe o que está fazendo”. O nó, descoberto pelos professores de Chicago, é que, numa brincadeira com o batido adágio, assim como não há mal que dure para sempre, também não há bem que se eternize. É uma pena. Mas é humano, demasiadamente humano.

Publicado em VEJA de 7 de março de 2018, edição nº 2572

Este conteúdo é exclusivo para assinantes do site. Assine agora e tenha acesso ilimitado.

Conheça os planos de assinaturaOU

Já é assinante? Faça o login