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Memória: Marina Kohler Harkot, Pino Solanas e Saeb Erekat

A pesquisadora, o cineasta e o diplomata

Por Da Redação Atualizado em 12 nov 2020, 21h06 - Publicado em 13 nov 2020, 06h00

Em sua dissertação de mestrado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), de São Paulo, apresentada em 2018, a socióloga e pesquisadora paulistana Marina Kohler Harkot tratou de um dos temas de sua predileção — o uso de bicicleta como recurso de mobilidade urbana. O título do trabalho deixava claro seu leque de interesses, de respeito a uma vida mais saudável e digna para toda a sociedade, em especial para o universo feminino: “A bicicleta e as mulheres: mobilidade ativa, gênero e desigualdades socioterritoriais em São Paulo”. Na madrugada do dia 8, enquanto pedalava em uma avenida da Zona Oeste da cidade, ela foi atropelada e morreu no local. Tinha 28 anos. O motorista, José Maria da Costa Júnior, de 33 anos, que dirigia o carro, um SUV, fugiu sem prestar socorro — ele se apresentaria à polícia no dia seguinte. Alegou ter ficado “apavorado com a situação”.

A morte de Marina provocou comoção e protestos em torno de uma personalidade cativante. A cicloativista falava cinco idiomas, passou um tempo na Alemanha e aos amigos dizia ser “carioca de nascimento e paulistana de coração”. O Laboratório Espaço Público e Direito à Cidade, onde ela também trabalhava, emitiu nota dizendo que a jovem “foi morta enquanto lutava; pois sua luta não se separava de sua vida, do seu corpo em movimento de bicicleta pela cidade”. Em 2019, 36 ciclistas morreram em São Paulo — em 2018, foram 22.

O cinema como política

REALIDADE - O diretor de Tangos — O Exílio de Gardel e Sur: “Há um outro mundo possível” – Vittorio Zunino Celotto/Getty Images

O diretor de cinema argentino Fernando “Pino” Solanas nunca escondeu ter feito cinema para poder tratar de política. Seu primeiro trabalho de repercussão, o documentário em forma de trilogia La Hora de los Hornos, de 1968, foi filmado no exílio, durante a ditadura militar de Juan Carlos Onganía. Ao misturar documentos de época com depoimentos, desenhou uma crônica ao mesmo tempo íntima e universal do peronismo na Argentina — que, não por acaso, incomodou os militares de plantão, que proibiram sua exibição. “No meu país, na América Latina, o meu cinema deseja mostrar que há outro mundo possível”, disse, ao resumir sua carreira. O olhar agudo seria depois transportado para a ficção. Tangos — O Exílio de Gardel, sobre seus conterrâneos e contemporâneos na diáspora, foi laureado com o Grande Prêmio da Crítica no Festival de Veneza de 1986. Sur, de 1988, retrato dos derradeiros dias da ditadura argentina antes da eleição de Raúl Alfonsín, em 1983, lhe deu a Palma de Ouro de melhor diretor em Cannes. Solanas morreu em 6 de novembro, em Paris, aos 84 anos. Tinha Covid-19.

“Dois estados para dois povos”

TERRA SANTA - O diplomata: apoio de palestinos e israelenses – Amir Levy/Getty Images

O diplomata palestino Saeb Erekat foi um dos nomes mais relevantes da recente história das tentativas de acordo de paz com Israel — ele ajudou a construir os Acordos de Oslo, em 1993, que instituíram a Autoridade Palestina e tinham como objetivo o estabelecimento de um Estado palestino, ainda inexistente. Era defensor fervoroso da criação de “dois Estados para dois povos” na Terra Santa. Sua morte foi lamentada por seus parceiros, evidentemente, mas também por israelenses. A ex-ministra das Relações Exteriores de Israel Tzipi Livni disse ter recebido uma mensagem de Erekat, já no hospital, com uma frase sucinta: “Eu não terminei aquilo que nasci para fazer”. Morreu aos 65 anos, em Jerusalém, em decorrência de Covid-19.

Publicado em VEJA de 18 de novembro de 2020, edição nº 2713

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