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Memória do papel

Uma nova tecnologia revisita a história ao detectar a presença de proteínas em manuscritos que registraram as mortes por peste bubônica há quatro séculos

“Por toda parte, trapos manchados de pus, excrementos malcheirosos, roupa de cama arremessada pelas janelas, cadáveres de pessoas ceifadas pela peste, corpos depositados na rua à espera da passagem dos carros de transporte (…) um silêncio de morte estabelecera-se na cidade (…).” O trecho do romance I Promessi Sposi (Os Noivos), do autor Alessandro Manzoni, retratou o devastador surto de peste negra que exterminou a população de Milão em 1630 — foram mais de 60 000 mortos. Agora, quase 400 anos depois, uma nova tecnologia permitiu que se realizasse uma fascinante viagem científica ao passado, ao desvendar as proteínas que havia nas listas, elaboradas à época e preservadas até hoje, com o nome das vítimas da epidemia.

INVISÍVEL – Manuscrito dos registros de mortes analisado na pesquisa

INVISÍVEL – Manuscrito dos registros de mortes analisado na pesquisa (Journal of Proteomics/VEJA)

Um grupo de pesquisadores da Universidade Politécnica de Milão utilizou uma técnica inovadora para explorar o que acontecia no ambiente que rondava esses papéis — desde o estado de higiene do local até a dieta dos escribas. Ao analisarem onze páginas de registros de óbitos de um lazareto, onde ficavam isolados os portadores de doenças contagiosas, os cientistas encontraram indícios de proteínas da família Yersinia. Sabe-se que a peste bubônica é causada pela bactéria Yersinia pestis, que afeta o sistema linfático. A infecção torna as glândulas inchadas e dolorosas, e sua taxa de mortalidade era extremamente alta, chegando a 60%. Acredita-se que ela tenha se espalhado por meio de piolhos, pulgas e ratos — comuns naquele tempo.

Os achados revelaram também proteínas de ratos (ou seja, eles frequentavam o local) e proteínas de alimentos como batata, milho, arroz, cenoura e grão-de-bico — indicando os hábitos alimentares daquele tempo em Milão. “O estudo retrata o que exatamente estava acontecendo”, diz Emanuel Maltempi de Souza, professor do departamento de bioquímica e biologia molecular da Universidade Federal do Paraná. “É uma nova forma de revelar a história.”

Para que fossem obtidos os resultados, um disco de plástico com substâncias químicas específicas foi colocado na superfície do papel para capturar as proteínas por até noventa minutos. De acordo com os pesquisadores, a técnica não danifica nem contamina os documentos. Disse a VEJA Pier Giorgio Righetti, coordenador do estudo: “Para entender nosso passado, armazenado em muitos documentos em bibliotecas, museus e coleções particulares, essa parece ser a ferramenta mais poderosa, a mais confiável e a mais relevante”.

Publicado em VEJA de 24 de janeiro de 2018, edição nº 2566