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Marmelada russa

A votação nas eleições presidenciais pode ter sido correta. O problema é o que aconteceu antes

Por Diogo Schelp - 23 mar 2018, 06h00

“Não lhe dê os parabéns”, recomendava — assim mesmo, em maiúsculas — o resumo entregue por assessores ao presidente Donald Trump antes da sua conversa por telefone com o colega Vladimir Putin, na quarta-feira 21. Em vão. Em certo sentido, era compreensível que o americano não felicitasse o russo por sua vitória nas eleições presidenciais ocorridas três dias antes. Afinal, na semana anterior, o governo americano havia feito coro à acusação de líderes britânicos e europeus de que o Kremlin está por trás do recente envenenamento de um ex-espião russo exilado no Reino Unido. Trump ignorou o que seu governo disse e também o conselho de assessores, e mandou bala. Poderia, inclusive, ter dado os parabéns a Putin na semana anterior, pois todo mundo já sabia que o russo seria eleito com aquelas votações monumentais que só acontecem em certas “democracias”. Com a intenção de mostrar que a votação na Rússia era coisa de democracia de verdade, a Comissão Eleitoral Central exibiu, no domingo 18, um painel que transmitia ao vivo a movimentação em dezenas de seções eleitorais. A votação pode ter sido correta. O problema é o que aconteceu antes das eleições. Há anos Putin vem esmagando qualquer oposição séria. Alguns adversários morreram misteriosamente. Outros foram presos. A maior parte da imprensa está sob o controle do Estado. O único candidato com alguma projeção nacional, Alexei Navalny, foi impedido de se registrar poucos meses antes do pleito. Ao fim de seu novo mandato de seis anos, Putin terá ocupado o poder por um quarto de século. Marmelada.

Publicado em VEJA de 28 de março de 2018, edição nº 2575

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