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Mãe aos 64 anos

Norma Maria de Oliveira, procuradora municipal em Minas, deu à luz Ana Letícia após décadas tentando engravidar

A minha luta para ser mãe era muito antiga. Eu tentava engravidar e não conseguia. Aos 30 e poucos anos, meu companheiro e eu procuramos um hospital público, vinculado a uma universidade, para tentar a inseminação artificial (injeção de espermatozoides no útero). Por um ano e meio, fiz várias consultas e exames. Fui diagnosticada com ovários policísticos e trompa obstruída, além de outros fatores que impediam que eu engravidasse de forma natural.

Nesse ínterim, meu companheiro faleceu. Aos 46 anos, eu tinha um novo relacionamento, e meu desejo de ser mãe aumentou. Fomos atrás do processo de fertilização in vitro (fecundação do óvulo em laboratório). Exigia-se, porém, um comprovante de união estável do casal por um período superior a cinco anos. Chegamos a providenciá-lo, mas, tempos depois, nós nos separamos — e meu sonho foi de novo adiado.

Para piorar, o Conselho Federal de Medicina publicou uma resolução que proibia mulheres com mais de 50 anos de se submeter a reprodução assistida. Como advogada, fiz uma petição ao órgão em que explicava minha situação e anexei a ela todos os exames que comprovavam que meu corpo era saudável para a gestação. No entanto, meu pedido foi negado.

O tempo passava e meu sonho de ser mãe ficava cada vez mais distante. Eu já tinha 60 anos quando comecei a pesquisar alternativas na internet e descobri que na Índia é muito comum mulheres mais velhas fazerem o tratamento de reprodução assistida com óvulos doados por jovens anônimas. Eu e meu atual companheiro não pensamos duas vezes: fomos tentar o procedimento na cidade de Jabalpur.

Atravessamos o mundo pelo meu sonho de maternidade. Contudo, ao chegarmos a Nova Délhi, soubemos que não havia voos para Jabalpur, por causa de um terremoto. A alternativa seria ônibus ou trem, porém ficamos com medo, por não conhecer o país. Voltamos frustrados. Às vezes eu me desanimava bastante, pensava que não tinha mais como meu projeto dar certo, mas retomei o fôlego e tentei de novo.

Um casal comentou que havia feito fertilização em Belo Horizonte, a duas horas de onde moro. Fomos para lá. Os exames deram o.k. Como entrei na menopausa aos 50 anos, recorri ao método de ovodoação (doação de óvulos por outra mulher), associado ao espermatozoide de meu companheiro. Fertilizamos sete embriões — quatro aptos à implantação. Decidi implantar um — engravidei na primeira tentativa. Eu tinha conseguido! Sempre quis ser mãe de menina e, embora não me preocupasse com o sexo, chorei muito ao saber que era uma garota. Meus pais já haviam morrido, e meus três irmãos só souberam da gestação quando a barriga estava grande. No momento em que dei a notícia a eles, achei que iam desmaiar, tamanho o susto.

No quarto mês de gravidez, afastei-me da prefeitura de Itabira (MG), porque minha pressão arterial começou a subir. Com 33 semanas, houve perda de líquido amniótico, e um exame que mostra a irrigação do bebê apontou alteração e queda de plaquetas — o que indicava pré-eclâmpsia, situação de extremo perigo para qualquer gestante. Em razão da minha idade, a médica decidiu fazer cesariana e evitar outros riscos.

No dia 10 de abril, Ana Letícia nasceu saudável, pesando 1,71 quilo e medindo 43 centímetros. O parto foi bem tranquilo, eu estava calma. Minha filha foi para a UTI, por ter nascido prematura. Peguei-a no colo somente três dias depois. Não me contive de tanta emoção. Ela tomava meu leite por meio de sonda, mas logo aprendeu a mamar no peito.

O preconceito que sofro por ter sido mãe aos 64 anos me deixa triste. E o maior preconceito vem das mulheres, principalmente as desconhecidas, que me abordam para dizer que sou muito velha para isso. Ninguém tem nada a ver com as minhas decisões. Há muitas mulheres que querem ser mãe mas não têm a coragem de fazer o que eu fiz.
Depoimento dado a Fernanda Bassette

Publicado em VEJA de 11 de julho de 2018, edição nº 2590

Comentários

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  1. Teria sido muito mais fácil adotar quando ela era jovem. Quando a criança tiver 10 anos ela será uma anciã de 74. Nada natural …

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