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Legado desolador

Um ano depois dos Jogos, o Parque Olímpico visto de longe ainda impressiona. De perto, não passa de um espaço de pouquíssimo uso e cheio de problemas

Era para ser um legado permanente, que daria orgulho à cidade. Mas, passado exato um ano da realização da Olimpíada do Rio de Janeiro, o Parque Olímpico e as demais instalações esportivas que tão bem receberam os Jogos estão em sua maioria vazios e sem futuro definido. Foram todos abatidos pela fatídica conjunção de falta de planejamento, falta de dinheiro e falta de interesse privado. O descaso sobre o novo cartão-postal, que consumiu 7 bilhões de reais para ser posto de pé, fica evidente em um relatório reservado a que VEJA teve acesso, elaborado pelo Ministério do Esporte, a quem coube, na bacia das almas, tomar conta de quatro arenas do parque. No levantamento dos problemas de construção em sua parte do espólio, o ministério contabilizou 1 642 falhas. Isso só em quatro arenas. E ninguém parece disposto a tomar providências tão cedo.

A prefeitura instalou o Parque Olímpico em uma área remota e sem estrutura na Zona Oeste da cidade — como fez Londres, sede dos Jogos de 2012, que plantou suas instalações em uma região distante e degradada. As coincidências acabam aí. Os ingleses providenciaram um eficiente sistema de metrô, trem e ônibus até o local. Os cariocas têm um único corredor de ônibus. A prefeitura londrina avisou a população que o parque ficaria fechado por um ano, para reformas. A do Rio prometeu mundos e fundos imediatamente (é verdade que ninguém acreditou muito). O Tesouro britânico financiou boa parte dos preparativos para a entrega do parque ao público. O Rio confiou que a iniciativa privada assumiria tudo, mas a crise econômica soterrou o projeto, por ora.

 (Marcos Michael/VEJA)

Na capital da Inglaterra, a mesma equipe que elaborou e executou as obras cuidou do pós-Olimpíada, desmontando as estruturas provisórias e arborizando o parque. Na capital fluminense, houve mudança de comando em todos os níveis e as reformas tropeçaram no habitual empurra-empurra. Passado um ano, os londrinos ganharam meio Parque Olímpico remodelado, bonito e atraente (a outra metade foi aberta no segundo aniversário). No Rio, o marco de um ano encontra um vasto mar de cimento ocupado por eventos esporádicos.

Visto do alto, o Parque Olímpico parece limpo e arrumado. Mas o relatório do Ministério do Esporte aponta uma a uma as anomalias nas arenas Carioca 1 e 2, no centro de tênis e no velódromo: infiltrações, corrosão, materiais cortantes no chão das quadras, fiação elétrica exposta, pisos e portas danificados. As quatro instalações foram empurradas para o órgão federal em dezembro pela prefeitura, que continuou cuidando de outras três — centro aquático e arenas Carioca 3 e do Futuro. O ministério considera que os consertos são obrigação das empreiteiras que a prefeitura contratou. Desde maio, porém, o pedido de providências dorme nas gavetas de gabinetes municipais.

Enquanto isso, o governo federal calcula que terá de gastar até 40 milhões de reais por ano em segurança, limpeza e manutenção de suas quatro arenas. O piso do velódromo, por exemplo, requer ar-condicionado ligado o dia inteiro, o que leva a conta de energia a 180 000 reais por mês. O Ministério do Esporte tem tentado organizar um calendário de competições nas suas instalações, mas elas ainda são escassas: oito desde fevereiro, sete confirmadas até o fim do ano. “Infelizmente, o Brasil quebrou e a iniciativa privada não se interessou. O silêncio do novo prefeito desanimou mais ainda o mercado”, alfineta o ex-prefeito Eduardo Paes, em referência ao sucessor, Marcelo Crivella. VEJA apurou que, em um movimento que pode aliviar o peso da inércia, a Caixa Econômica Federal negocia o direito de pôr o seu nome em uma das arenas.

Da parte que cabe à prefeitura, as piscinas do centro aquático foram removidas para outros usos, mas as arquibancadas e a estrutura, que deveriam desaparecer, continuam lá. A Arena do Futuro ia ser desmontada e os blocos reaproveitados na construção de quatro escolas municipais, mas ela permanece intacta. Os espaços de circulação abrem só nos fins de semana, e não diariamente, como prometido. Mesmo que abrissem, careceriam de pontos de descanso, de restaurantes, de banheiros — e de árvores e sombra, queixa constante. A gestão Crivella, claro, joga a culpa no governo Paes, por não ter previsto recursos para executar os serviços. “Tivemos sete anos para planejar o bom uso dos equipamentos, e isso não foi feito”, diz Luiz Lima, ex-­secretário do Ministério do Esporte. A Arena Carioca 3, que seria um misto de escola e centro de treinamento de talentos, hospeda algumas atividades esportivas da rede pública — muito longe do destino original. Geração de renda, mesmo, só é esperada do Rock in Rio e de uma competição paralela de games, eventos marcados para setembro. Uma igreja evangélica chegou a procurar o ministério para organizar um grande encontro, mas ainda não há nada fechado.

A justificativa de falta de recursos também paralisa a fatia sob a guarda da prefeitura no Complexo Esportivo de Deodoro, a 20 quilômetros de distância (as demais instalações eram e continuam sendo do Exército). Antes dos Jogos, o Parque Radical chegou a ser aberto à população, que festejou os canais de água e as trilhas de seus 500 000 metros quadrados. Agora está fechado, os canais esvaziados e a pista abandonada. O Maracanã, cuja reforma para a Copa do Mundo foi saudada como uma volta aos tempos de ouro, permanece nas mãos da encrencada Odebrecht, que não consegue repassar a concessão, cobra aluguéis caríssimos e amarga um prejuízo de 200 milhões de reais.

A Vila Olímpica, alojamento dos atletas que uma incorporadora ergueu com a intenção de fincar ali um novo bairro, micou — dos 3 604 apartamentos em 31 prédios, só 260 foram vendidos. O campo de golfe está funcionando, tocado pela Confederação Brasileira do esporte, mas dá prejuízo, e os 4 milhões de reais que o Comitê Rio 2016 deveria ter repassado até agora não apareceram. O comitê, aliás, está atolado em dívidas. Seu passivo é de 132 milhões de reais com fornecedores, prestadores de serviço e até torcedores que esperam reembolso de ingressos. A receita é zero. O legado é desolador.

Com reportagem de Alexandre Senechal

Publicado em VEJA de 2 de agosto de 2017, edição nº 2541