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Impacto estelar

Técnica que combinou captação da luz com detecção de ondas gravitacionais permitiu ver e 'ouvir' um choque entre estrelas

Em outubro, uma colisão interestelar chacoalhou o universo da física — que é o nosso também, claro. Foi quando, pela primeira vez, cientistas anunciaram que detectaram o choque entre duas estrelas de nêutrons (astros muito densos que restam da explosão de outras estrelas; cada uma delas tinha o tamanho de uma cidade como Londres, mas com massa superior à do Sol). O fato, em si, não é a verdadeira novidade — apesar de ter rendido simulações magníficas (como a que aparece acima). O grande salto científico no episódio está no método por meio do qual foi possível coletar e interpretar as informações que resultaram do choque extraordinário. Para chegarem a esse avanço, os astrofísicos usaram uma técnica que combinou a captação da luz emitida pela colisão, ocorrida há 130 milhões de anos — o tempo necessário para que as partículas de fótons viajassem até a Terra —, com a detecção, em forma de variações sonoras, das ondas gravitacionais geradas pelo fenômeno. Batizada de “astronomia multimensageira”, a metodologia permitiu ver e “ouvir”, simultaneamente, o espaço. Foi essa simultaneidade — ver e ouvir ao mesmo tempo — que entusiasmou a comunidade científica.

As ondas gravitacionais, teorizadas por Albert Einstein, deformam o campo do espaço-tempo ao redor dos astros, como uma bola de ferro que, lançada sobre uma rede, faz com que ela se vergue por causa de seu peso. Sua detecção se deu pela primeira vez em 2015, no Laboratório Ligo, nos Estados Unidos, exatamente por sua conversão em vibrações sonoras. Contudo, naquela experiência de dois anos atrás, não se captaram, ao mesmo tempo, o que tinha sido transformado em som e a luz — foram descobertas estanques. Só em 2017 foi possível assistir ao “filme da galáxia” de modo completo: com a imagem e, no mesmíssimo instante, o som. O extraordinário avanço nos permitirá observar o cosmo em detalhes. Acredita-se que a técnica vai possibilitar aos cientistas estudar muito mais do que astros em colisão. Com ela, espera-se desvendar mistérios como a existência de buracos negros — ou mesmo explicar como os sistemas estelares se formaram. Fechamos o ano olhando para o futuro, mas firmemente ancorados no espetacular retrovisor de nossas origens.

Publicado em VEJA de 27 de dezembro de 2017, edição nº 2562