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Hora da reza brava

Com desempenho de candidato nanico, Geraldo Alckmin muda equipe política e perfil nas redes sociais para tentar fazer sua candidatura decolar 

Por Ana Clara Costa - 15 jun 2018, 06h00

Quando Geraldo Alckmin conquistou a presidência do PSDB, em dezembro de 2017, sua equipe comemorou o que seria um golaço — e o primeiro movimento destinado a erguer a candidatura do então governador de São Paulo à Presidência da República. A estratégia de assumir o controle da máquina partidária veio combinada com outra, de objetivo convergente: em seu discurso de posse, Alckmin elogiou a condução da economia pelo governo Temer, sinalizando que começava a pavimentar ali uma aliança com o MDB capaz de lhe render quatro minutos diários de TV.

Seis meses se passaram e o resultado da estratégia pode ser medido pela última pesquisa do Datafolha, em que o tucano aparece engessado em 7% das intenções de voto. Pior: ele não foi capaz de avançar em acordo com o MDB nem com aliados históricos como o DEM. Tampouco conseguiu entusiasmar a militância. Em abril, assessores propuseram criar um movimento virtual para engajar apoiadores. Alckmin não autorizou: disse que investir em “convertidos” não levaria a lugar algum. O tucano costuma rejeitar toda iniciativa que envolva “claques”, daí sua equipe ficar receosa de convocar militantes para recebê-lo por onde passa. Na última semana, em Brasília, alguns apoiadores foram avisados da visita e se dirigiram ao aeroporto para saudá-lo. O presidenciável só se mostrou satisfeito com a acolhida depois de confirmar que todos haviam ido ao local espontaneamente.

Engessado com 7% na pesquisa Datafolha, o tucano não avançou em acordo com o MDB, tampouco com aliados históricos, como o DEM

O fato de seu núcleo político — composto de veteranos paulistas como os deputados Samuel Moreira e Silvio Torres — não ser propriamente popular em alguns setores do tucanato é outro complicador. Nas palavras de um deputado do PSDB, a trupe de Alckmin é “politicamente inócua” e “sem traquejo”. Tanto essa avaliação encontra eco no partido que um grupo de tucanos, do qual fazem parte o ex­-governador de Goiás Marconi Perillo e o ex-ministro Bruno Araújo, chegou a pedir ao presidenciável que incluísse em sua equipe “gente mais experiente”. A reação do tucano foi mercurial: ele gritou que bastava de intromissões. Mas, dias depois, recuou ao perceber que a inflexibilidade poderia dar margem a uma retomada do projeto de João Doria à Presidência. Aceitou que integrassem seu time medalhões do tucanato, como Alberto Goldman, José Aníbal, Pimenta da Veiga e o próprio Araújo, capitaneados por Marconi Perillo, que assumiu a coordenação política da campanha.

Recentemente, Alckmin cedeu em outra esfera, a virtual: topou que sua equipe de redes sociais, comandada pelo marqueteiro Marcelo Vitorino, imprimisse um tom mais agressivo a seus perfis, para rivalizar diretamente com Jair Bolsonaro. Em apenas uma semana, a mudança resultou em alta de 30% no número de pessoas que viram suas postagens no Facebook e foi considerada um marco na campanha do tucano, notório por rejeitar investidas inovadoras. Há 23 anos (desde que ocupou seu primeiro cargo relevante, como vice de Mario Covas) Alckmin observa os mesmos mandamentos: jogar parado e ter fé no poder dos minutos de TV. Deu certo no passado — para candidatos do passado.

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Publicado em VEJA de 20 de junho de 2018, edição nº 2587

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