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História desperdiçada

Com previsíveis clichês de filmes de ação, 'Polícia Federal — A Lei É para Todos' não consegue dar conta da conturbada trajetória da Operação Lava-Jato

Alberto Youssef não resistiu à prisão quando foi abordado por agentes da Polícia Federal em um hotel em São Luís, em 2014. Mas em Polícia Federal — A Lei É para Todos (Brasil; 2017), o primeiro filme sobre a Operação Lava-Jato, com estreia no feriado de 7 de Setembro, o doleiro quase escapa. Quando os agentes da PF entram, de arma em punho, no seu quarto, ele não está mais lá. No corredor, um agente topa com o doleiro, que corre para o elevador. O policial fica de fora — e tem de correr pelas escadas até o térreo, onde, no último minuto, intercepta o táxi que levava o fugitivo.

Sim, toda adaptação de histórias verdadeiras toma licenças com a realidade. Mas de que serve acrescentar um clichê de filme de ação — a corrida desabalada escada abaixo — ao marco inicial da maior devassa à corrupção já feita no Brasil? Com orçamento vultoso de 16 milhões de reais — bancado por investidores que, por contrato, desejam permanecer anônimos — e dirigido por Marcelo Antunez, Polícia Federal parece não confiar no poder que a história da operação de Curitiba tem de atrair espectadores. E não sabe muito bem como contá-la: guiado pela narração em off do delegado vivido por Antonio Calloni, o roteiro é demasiado esquemático no seu esforço de concentrar, em menos de duas horas, dois agitados anos de investigação, da prisão de Youssef (vivido por Roberto Birindelli) às escutas telefônicas que impediram Lula de ser ministro em março de 2016. Tampouco se cria envolvimento com os mocinhos do filme — os policiais, os procuradores e o juiz Sergio Moro (Marcelo Serrado), que, em um momento caseiro, aparece tirando uma pizza (!) do forno. Há duas cenas tensas: a prisão de Marcelo Odebrecht (Leonardo Medeiros) e a condução coercitiva de Lula, interpretado, sem maneirismos, por Ary Fontoura. São acenos para o grande filme que a Lava­-Jato poderia ter rendido.

Publicado em VEJA de 6 de setembro de 2017, edição nº 2546